
em 2009 foi assim
vem ver como vai ser em 2018
é no próximo sábado dia 30

o “Lameirense” ainda velejava
(ria de aveiro; regata da ria; 2009)

em 2009 foi assim
vem ver como vai ser em 2018
é no próximo sábado dia 30

o “Lameirense” ainda velejava
(ria de aveiro; regata da ria; 2009)
vêm devagar
vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais
partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde
sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo
enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa
nada mais posso fazer

o falecido manuel vieira (valas)
(murtosa; regata do bico; 2007)
fazer o futuro

o “Doroteia Verónica” ainda velejava
presa nas malhas
do corpo
esta coisa pensar
recolher-me na
incerteza dos dias
reviver os que foram
no que é
no que me deixaram
para que deixe
viver hoje
é preservar o ontem
fazer o futuro

o “Doroteia Verónica” ainda velejava
(regata da ria; 2010)
dia 30 de junho há regata
memória de um dia

falarão dos barcos
dirão moliceiros
ninguém falará de ti
sequer saberão o teu nome
pouco te importa
hoje tens tempo de antena
roubado que seja
mas tens e sorris e falas
não sabes de amanhã
ignoras o ontem
os moliceiros digo
são aves frágeis sem asas
e tu sabes
porque lhes cortaste
as últimas

(regata da ria ; 2010)
a meta

entrou água no barco
como na casa a lama
ensurdecedoras as palmas
de quase gente
na casa de todos nós
não há pior cegueira
que a dos que vêem
nem palavras mais feras
do que as dos que mentem
ofertando-as como se verdades
do alto se fizeram ouvir
ao rebanho
seguiu-as quem quis
ou melhor não soube porque
muitos anos fazem obra
calejam discernimento
urge escoar as mentes
como o barco
para chegar à meta
(regata da ria; escoar; 2016)

o amigo manuel antão, no moliceiro “A. Rendeiro”
no dia 13 de maio de 2018 o moliceiro “FERREIRA NUNES” beijou pela primeira vez a ria, a este primeiro beijo chamamos nós “bota-abaixo”.
filho e neto de moliceiros, antónio ferreira nunes não andou ao moliço, mas para estes homens o moliceiro é um barco que lhes corre nas veias em direcção à ria.
porque era um sonho, porque queria deixar a memória de um tempo, sem apoios financeiros institucionais, investiu do seu bolso.
num terreno baldio, ao lado da casa onde mora, construiu um moliceiro. com a ajuda do mestre zé rito, usando os paus de pontos e os moldes do mestre henrique lavoura.
o essencial ficou dito na entrevista breve, mas há uma coisa que não podemos esquecer: não há razão que explique este amor dos murtoseiros, dos homens e mulheres desta terra, pelos moliceiros.
será que quem manda não ouve, não sente?
admiro-os porque não posso fazer mais.
tenho orgulho na amizade que alguns têm por mim. tenho pena que sejam tão poucos, mas estou feliz por ver que, para além dos que foram moliceiros e por isso querem ter um a navegar, há uma nova geração que nunca andou ao moliço mas que
TEM MOLICEIROS NO SANGUE E OS QUER FAZER NAVEGAR
BEM HAJAM
(o testemunho do dia do bota-abaixo, num apontamento de vídeo, aqui fica)
para o ti zé rebeço

(eu não estou descalço cravo
uso os sapatos que a minha mãe
me deu quando nasci)
o homem é a ria
o barco
o nome o mesmo
o vício
a casa sobre a água
o chão
às raízes
regressar depois de
ser de novo

(torreira; regata da ria; 2011)
olhar é sentir

todos os dias assisto
a uma sessão privada
de cinema
o filme da minha vida
passa e repassa
vejo e revejo-o
todos os dias
o filme é diferente
como eu o sou
olhar é sentir
e nunca se olha
da mesma forma

(torreira; regata da ria; 2010)

quando

quando amanhã
for ontem
quando tu tiveres
sido
sem nada seres
nada restará de ti
a não ser o nada
que foste

(torreira; s. paio; 2017)
fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)
