olhei e não vi


olhei e não vi

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olhei e não vi o barco
vi o esqueleto
a madeira

olhei e não vi o estaleiro
vi a areia o sol em brasa
o mestre as ferramentas
o suor no rosto

olhei e não vi nada
não posso ver

olhei só
e lembrei-me de ter visto
o mestre há alguns anos
no estaleiro à beira porta
a fazer o mesmo
construir um moliceiro
mas à sombra de uma rede
a dele

quanto mais olho
menos quero ver

asneira sobre asneira
se constroem os dias
se destrói o sonho
se enterra a memória

não escrevo para que gostem
registo para que se interroguem
passo e não vejo mas olho
e não resisto

até estar de férias aqui
começa a ser complicado
ser cego dói ver dói mais

todo o absurdo aqui é real

(torreira; 18 de julho de 2016)

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o mestre zé rito constrói mais um moliceiro, agora para o zé rebelo. ao lado ” ….O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa,….”

os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

0 ahcravo_DSC_1442_regata bico 2012, a partida

é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (220)


hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o ti virgílio no sara e cristina

na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava

pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória

partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido

onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu

abraço-os a todos
porque como sempre

hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio

(murtosa; regata do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (216)


hoje continuo a ser eu

SONY DSC

o moliceiro “zé rito”

chegar ao mar
dizer bom dia à ria
ver sentir ser

esquecer tudo
viver apenas
o que os olhos

o deslumbramento
é breve

sinto na carne
a faca que me espetaram
e tudo se esvai

soma-se o que oiço
a exploração dos pescadores
o ludíbrio dos moliceiros

a verdade é mais forte
que toda a beleza
e o instante passou

por muito que me doa
hoje continuo a ser eu

SONY DSC

manejam os barcos com a mesma arte com que são manejados

(murtosa; regata do bico; 2009)

postais da ria (163)


em torno de mim

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impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

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(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (211)


“CORREIO

Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.

………..

Manuel Alegre

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dou-vos a minha palavra

desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida

sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam

sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca

cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança

dou-vos a minha palavra

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(cais do bico; murtosa)

postais da ria (152)


boas manel

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éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

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(ria de aveiro; cais do bico)

os moliceiros têm vela (199)


quem dera tu

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os dias têm o tamanho
de sempre

mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas

acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã

o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos

divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso

não te escrevo
escrevo-me

os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também

quem dera tu

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(murtosa; regata do bico, 2012)