
andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)

andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)
boa viagem meu irmão

o “a. rendeiro” mostra-se
não consigo escrever
o teu sorriso
a lágrima de alegria
a espera foi dura
contados os dias
não consigo escrever
a tua voz
como se muitos anos
mais jovem
abraço-te com palavras
e lembro-me de um verão
juntos rente às raízes
nesta nova viagem
sê feliz meu irmão

o ti zé rebeço mostra o que vale
(murtosa; regata do bico; 2009)

o arrais marco mostra como é velejar um moliceiro
a arte de velejar um moliceiro

um barco lindo que teve de ser vendido e que anda pelos canais de aveiro mutilado e maltratado
(murtosa; regata do bico; 2007)
faz falta um canil na terra

quando todos ajudam
não me peçam
palavras doces
calma silêncio
não sei quantos
sou comigo
sinto que muitos
deixam-me falar
para me matarem
pela calada
esquecem-se
de que não é a mim
que matam
é à memória de um povo
que dizem seu
a que pertencem e os escolheu
faz falta um canil na terra

os HOMENS da terra são desta fibra
(murtosa; regata do bico; 2007)
o caminho é em frente

aproveitar o vento
saber onde o laço
o nó
as mãos dadas mais
lembrar o ontem
na escolha de hoje
limpar a courela de ervas
semear
tempo de fazer a rede
confiar no fio
na arte dos dedos ágeis
dar as mãos pelo futuro
saber escolher
amanhã não me posso
arrepender
crescemos porque damos
não porque recebemos
sopram ventos de mudança
partamos com eles
o caminho é em frente
sempre foi

é esta a nossa gente
(murtosa; regata do bico; 2006)
espero um dia novo

há-de ir à vara
espero um dia novo
a cada dia
nada mais peço que
novo seja
de memória o sonho

o homem e o barco
(murtosa; regata do bico; 2010)
homens da ria

eles podem ser o futuro, assim os deixem e apoiem
há moliceiros na ria
porque de paixão
estes rostos cheios
retesados corpos
na ânsia da vela
mais alto o mastro
voga o sonho
dentro deles
num amanhã
onde não estarei
serão eles os mestres
senhores dos ventos
homens da ria

zé pedro miranda, joão magina e rui rodrigues (russo)
(murtosa; regata do bico; 2014)

os filhos do arrais marco silva, sérgio e ricardo
no dia 20 de junho de 2015, foi deitado à ria o moliceiro “Marco Silva”.
começado a construir em março pelo arrais marco silva e pelo mestre firmino tavares, com a ajuda dos filhos e amigos, o arrais marco silva voltava a ter um moliceiro.
depois da venda, há uns anos, do “Ricardo e Sérgio”, por não ter condições para a sua manutenção, o arrais voltava à ria com barco novo.
sem quaisquer apoios institucionais, como é costume em nome do défice, mas com muita “paixão” e solidariedade de todos, conseguiu.
deste momento importante da vida de ambos, homens e barco, não consegui registar o instante mais significativo do bota-abaixo: o baptismo e o deslizar pela rampa, tal era a aglomeração de gentes e repórteres e…. não menos importante, os meus parcos 1,65 metros de altura.
o bota-abaixo foi feito na marina de recreio da torreira, propriedade da associação naval da torreira, e o barco deslizou tão bem e reconheceu tão depressa a ria, que o arrais marco teve de nadar para ir ter com ele e assumir o lugar que lhe competia.
depois, o “Marco Silva” levou a bordo a companha de xávega do arrais marco, que esteve presente em todos os momentos do bota-abaixo, e alguns amigos.
de realçar o papel dos filhos sérgio e ricardo em todos os momentos da construção, aproveitando férias e fins de semana. se os barcos do arrais marco silva, têm os nomes dos seus familiares, verdade seja dita que sempre os tem a seu lado quando é preciso.
aqui fica o testemunho da realização de um sonho, do regresso do mestre firmino tavares à arte de construção naval, da força de uma família e da unidade de uma companha.
é esta a ria das solidariedades e dos HOMENS
mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
UM BOM ANO DE 2016
sobreviver

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista
de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos
espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda
um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos
nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de
sobreviver

a bandeira da pátria dos moliceiros
(murtosa; regata do bico; 2007)