o repartir do pão
quando o pouco
é muito

(praia de mira; 2009)
o repartir do pão
quando o pouco
é muito

(praia de mira; 2009)
ainda
estarei onde
os olhos poisarem
serenos de
sou o que regressa
por ser
esta a terra o mar
as gentes
vivo onde estou
sou onde sinto
um sorriso
questiona-me
já por cá
ainda

os “henrique gamelas” pai e filho
(torreira; cabrita baixa; 2012)
se
se judas traiu
cristo
todos conhecem
a história
quem sou eu para
me queixar

(alvor; 2018)
é pêxe
onde há mar
há pescadores
aprendo com eles
as artes
mais que os rostos
as palavras
tudo é novo
e tão antigo
não há geografia
que nos separe
quando é o mar
que nos junta
é pêxe o abraço

(alvor; empatar anzóis; 2018)
deixa-os descobrir
deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem
ignoram porém
que tu também
as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém
deixa que pensem
que só as há no teu
entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue
deixa-os descobrir

(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
quem safa as redes, safa a vida?
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira

essencial
esvai-se na memória
o detalhe
o traço breve e fundo
rasgado no tempo
onde os teus dias
habitas inteiro
essencial

(torreira; 2016)
iludi-me

torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira
da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito
o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória
olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi
tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões
sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto
iludi-me
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho+
falo da solheira
(torreira; 2017)