a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal
actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:
“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada
características:
– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)
o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.
na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.
cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.
para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:
– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal
a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.
ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.
anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.
ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”
durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.
os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.
as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.
o esforço da alagem é notório nos registos.
em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.
por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.
não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar
(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?
sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?
quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?
procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço
se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos
maria josé moreirinhas, na sua tese de mestrado “SOLIDARIEDADE E SOBREVIVÊNCIA NA RIA DE AVEIRO” – editada em 1998, com patrocínio da câmara municipal da murtosa – escreve na página 167 “ Em 1994, na Torreira, apenas apareceu um intermediário (para a compra de ameijoa e berbigão; o resto do pescado é vendido em Pardelhas) que, como único comprador estabeleceu o preço que lhe convinha” ……
estamos em 2017
a praça de pardelhas já não existe, os intermediários agora são 2 e compram tudo: berbigão, ameijoa, choco, linguado, lampreia …. são eles que estabelecem os preços e, no caso do berbigão, definem ainda as quantidades e os dias da compra.
acabou-se a capacidade de os pescadores venderem num mercado concorrencial, com todas as consequências que dai resultam para os seus rendimentos. mais ainda, existem contratos “de fidelização” com os intermediários, com aplicação de “multa” em caso de venda a terceiros.
de todos os pescadores da torreira, dos dedos de uma mão sobram muitos depois de contarmos os que não têm contrato com um intermediário.
não escrevo, nem digo mais nada. quem lê que tire as suas conclusões.
a ria, o rio, a laguna, como lhe queiram chamar, tem uma saída para o mar, os pescadores da torreira também. aos mais novos resta-lhes ainda emigrar ou, com alguma sorte, arranjar emprego na pouca indústria que na zona existe.
não há futuro na ria
nota: para quem se interessar pela vida dos pescadores da torreira aconselho a leitura do livro com que abro esta crónica
queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir
do ser
enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos
por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver
a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves