os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

0-ahcravo_dsc_2327-sep

o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

os moliceiros têm vela (244)


é tempo de moliceiros

0-ahcravo_dsc_6922-a-bw

abílio fonseca (carteirista)

há gestos que dão vida
há silêncios que matam
há palavras que assassinam

há homens que se revelam
a cada instante
de uns fica a memória de terem sido
de outros a de serem para sempre

para o ti abílio mais que a palavra
o gesto o abraço o estar aqui
mesmo se retirado

em 2016
o ti abílio salvou-me o ano
que outros mataram

para ele 2017 é pequeno
o tempo todo não chega

é tempo de moliceiros
queiram ou não
será sempre

0-ahcravo_dsc_6922-a

80 anos de fibra

(regata do s. paio; 2016)

postais da ria (195)


notas de um retirante

enguias, onde?

0-ahcravo_dsc_6775

a receita “caldeirada de enguias à murtoseira”, tem imagem de marca e é única.

a receita, entenda-se.

agora fica a pergunta: ainda há enguias na ria? ainda há quem possa fazer vida da apanha de enguias? as enguais ainda são uma riqueza da ria?

em tempos de haver moliço e a ria ser a de eu me lembrar, apanhava-se enguia à certela, à fisga, ao candeio, à chincha, com galrichos ……

apanhava-se porque havia. e agora?

a companha do manel trabalhito, pai, apanhava-as à chincha de pareja, o filho continuou, não sei se ainda continua. o henrique “orelhas” continua com a chincha de pareja. na torreira são os que conheço.

haverá talvez 2 pescadores, poucos mais, que apanham algumas enguias com galrichos, mas com bateiras atracadas no lado da serra: bestida, murtosa, bunheiro ……

as enguias que se comem no concelho e nos festivais gastronómicos; as que a comur conserva e vende; as que a maior parte dos restaurantes serve…. todas essas, de onde vêm?

há enguias na ria? há, sim senhor. mas há quantos anos não chegam para as encomendas?

neste galricho vão 2, nos galrichos todos foram para aí 3 ou 4 – em 2012, com o armando bastos (piço) e o emanuel (rico).

não adianta esconder o sol com a peneira. fazem-se boas caldeiradas nos restaurantes do concelho da murtosa, mas em quantos se comem enguias da ria e quantas vezes?

vale a pena procurar e perguntar e só depois escrever.

(2012)

os moliceiros têm vela (242)


notas de um retirante

0-ahcravo_dsc_7985-sep

a realidade é mais surreal

em 2012 não houve regata da ria. o relato dos porquês, dos como e dos quem, está feito no meu blog, na publicação:

há moliceiros na ria em protesto

e outras, anteriores e posteriores. é uma questão de pesquisar.

a terminar o ano, mais umas dicas para a história dos moliceiros:

quando em 2012 a regata não se realizou, a entidade promotora era o “turismo de aveiro” e a organizadora a habitual “associação dos amigos da ria e do barco moliceiro”.

quando o turismo de aveiro soube pela imprensa qual o valor que estava em causa, terá dito que afinal até teria sido possível angariar esse montante. então quanto é que a organização tinha pedido?

em 2016 soube que, do montante atribuído à regata, só cerca de 50% chega aos moliceiros…. mais não digo

entre 2013 e 2015 a entidade organizadora foi a “associação náutica da torreira” que, por questões financeiras, acabou por não pagar a totalidade dos prémios devidos aos moliceiros

em 2016, tendo em conta o que aconteceu com os pagamentos de 2015, a organização passou para o rancho folclórico “camponeses da beira ria”.

os responsáveis pela organização foram mudando mas os prémios para os moliceiros mantiveram-se.

seria interessante estudar a repartição, em valor absoluto e percentagem, ao longo dos anos, das verbas atribuídas à “regata da ria”.

eu? eu não sei nada.

0-ahcravo_dsc_7985-bw

há muito para desvendar, ainda

(ria de aveiro; 2012)

os moliceiros têm vela (227)


NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

00 ahcravo_DSC_4573 bw

momentos finais da regata da ria 2016.

os 3 primeiros estão definidos: em primeiro lugar o “Zé Rito”, em segundo o “A. Rendeiro” – por dentro – e em terceiro o “Marco Silva” – por fora.

até ao fim sempre juntos e com pouca diferença.

houve regata, sim, houve competição, sim. os moliceiros mostraram o que valem e como podem dar vida à ria.

NÃO DEIXEM MORRER OS MOLICEIROS!

00 ahcravo_DSC_4573

(regata da ria 2016)

postais da ria (181)


nunca mais

0 ahcravo_DSC_0295 bw 1

rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão

à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos

o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia

do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria

olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória

sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem

não há futuro aqui
nunca mais

0 ahcravo_DSC_0295 a

a névoa cobre tudo, até o futuro

(torreira)

regata da ria 2016 (conclusão)


obrigado ti abílio, obrigado reinaldo

0 ahcravo_DSC_3972 bw

o moliceiro “Dos Netos” do ti abílio carteirista

com este apontamento, encerro o ciclo dedicado a algumas meditações sobre as regatas da ria em geral e da de 2016, com maior detalhe.

haja futuro para os moliceiros.

não podia deixar de abraçar aqui um moliceiro em particular: o meu amigo ti abílio carteirista, decano da regata – fará 80 anos este ano e está aí para as curvas.

depois de receber, como todos os moliceiros que participaram na regata, a medalha a que tinha direito, o ti abílio veio direito a mim – eu não tinha almoçado com eles – e ofereceu-me a medalha que era dele. de imediato o reinaldo belo, que conheci nesta regata, me ofereceu a dele também.

tudo decorreu sem espaventos, com simples troca de abraços entre amigos.

mas quero dizer-lhe, ti abílio, e a si também, reinaldo belo, que não tenho palavras para o vosso gesto.

por mais distinções que tenha tido ao longo da vida, nenhuma é maior e mais valiosa que estas ENORMES medalhas que guardarei comigo.

bem hajam os dois

em agosto, no bico, lá estaremos

0 ahcravo_DSC_3972

na regata são permitidos 3 tripulantes por barco, ao ti abílio, a fazer 80 anos, basto ele e mais um

(ria de aveiro; regata da ria; 2016)