hoje existo só

o agostinho canhoto sacode o saco
existe o homem e
existe a rede
existe o mar e
existe o peixe
existo eu porque
assisto a tudo
e assistir
é outra forma
de existir
hoje assisto só

(torreira; companha do marco; 2010)
hoje existo só

o agostinho canhoto sacode o saco
existe o homem e
existe a rede
existe o mar e
existe o peixe
existo eu porque
assisto a tudo
e assistir
é outra forma
de existir
hoje assisto só

(torreira; companha do marco; 2010)
hoje quero aprender

o rico enche a ciranda de berbigão e conchas, por entre as barras hão-de cair as conchas e o o berbigão miúdo
joeira os dias
ciranda as memórias
escolhe
lembra apenas o que
limpa-te das chagas
sofridas
sorri de lembrares
sorrisos
depois de o fazeres
ensina-me
como conseguiste
hoje quero aprender

(torreira; junho, 2016)
unem-se na partida

o nelson arruma as redes, vai para o mar
arrumar as redes
é arrumar os dias
é tempo de partir
de ir ganhar a vida
que na ria se gasta
o arrasto o bacalhau
a pesca do alto
na ria não se faz vida
a desunião desfaz a força
unem-se na partida

só parte quem ficando não faz vida
(torreira; 2016)
hoje estou vivo

eh! gente do mar. voltei!
estou de regresso
ao mar à ria
a uma certa forma
líquida
de ter casa onde
navegam
amigos muitos
sorrio
porque ainda
ainda estou cá
os dias bebo-os todos
como se os últimos
porque se não repetem
estou vivo, caramba
hoje estou vivo

estou de volta, ti horácio!
(torreira; companha do marco; 2014)
hoje sou outro

o cambar
de tão óbvio
desnecessário seria
ter de o escrever
quem ontem fui
por ter sido
deixou de o ser
hoje sou outro

a beleza das velas
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
tecnologia à moda do porto

bai-te
que eu já
te bi-te

(torreira; regata da ria; 2013)
a xávega

o agostinho
o bordão
o saco
o mar
a máquina
eu
o registo
disto
a xávega aqui
um pouco
muito

(torreira; companha do marco; 2013)
hoje sou sonho

quisera-me assim
quase nada
presença ausente
qualquer coisa
entre uma ave
e a música
hoje sou sonho

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2010)
hoje sou palavras

escrevo amigos
e a palavra
tem gente dentro
gente que não conheço
me abraça e abraço
com palavras
dizê-los escrevendo-me
sentirem-se ao ler-me
é sonhar ser mais
hoje sou palavras

(torreira; regata do s. paio; 2014)
hoje sou memória

o M. Fátima
pesam em mim gerações
que desconheço
enterrados na memória
comum de um povo
os meus maiores
entre mim e eles o ser eu
a continuação
existo por que existiram
isso lhes devo
quisera soubessem que
os lembro
porque continuam em mim
hoje sou memória

na areia um barco só pode morrer ou descansar
(praia da torreira; 2013)