a escolha

estar vivo será perigoso
calmo sossegado
é não estar
a escolha não é tua

(torreira; regata do s. paio; 2013)
a escolha

estar vivo será perigoso
calmo sossegado
é não estar
a escolha não é tua

(torreira; regata do s. paio; 2013)
temer e ousar

a difícil arte de arribar
tratar o mar por tu
é arte de poucos
saber antigo
feita de
temer e ousar

só quem não sabe pensa que é fácil
(torreira; companha do marco; 2010)
o instante

o regresso
hoje é ser eu aqui
o momento é agora
o tempo todo
é coisa nenhuma
respiro o instante

(ria de aveiro; torreira)
aos senhores da terra

toda a beleza dos moliceiros
queria acreditar em vós
em tudo o dizeis
ouço-vos atento
mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa
(torreira; regata da ria; 2010)
panamá

o saco chega à praia
é verdade pá
não conheço nenhum pescador
com conta no
panamá
só encontro
uma resposta
trabalho duro
não dá
p’ra ter conta
no panamá

trará peixe? o resultado é sempre incerto
(torreira; companha do marco; 2009)
vida

nada é tudo
tudo é nada
muito é pouco
pouco é muito
vida

(torreira)
dos euzinhos

que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa
escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia
mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais
lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar
não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si
euzinhos

(torreira; companha do marco; 2009)
ser quase nada

a ria por destino
ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais
escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão
tantos
julgam ser
quase tudo

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira
(torreira; marina dos pescadores)
penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
até um dia

o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador
não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles
são o silêncio
o murmúrio
a resignação
falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será
esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles
têm no rosto escrita
a vida
até um dia
serão apenas
o país profundo
até um dia

dar-lhes voz
(torreira; companha do marco; 2013)