postais da ria (148)


cabrita alta

00 ahcravo_DSC_8790_joão manuel dias bw

joão manuel dias

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?

os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas

tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados

o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos

quero que os sintas
ao leres

00 ahcravo_DSC_8790_joão manuel dias c

no fundo da ria e cabrita arrasta

(torreira; cabrita alta; 2012)

os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

0 ahcravo_DSC_5867 bw

o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

0 ahcravo_DSC_5867

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata

crónicas da xávega (145)


o cinismo reina

0 ahcravo_DSC_6079 bw

mãos de mar, mãos de trabalho

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado

as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos

porque não algemam
as mãos que fazem armas?

o cinismo reina

0 ahcravo_DSC_6079

mãos salgadas, mãos de pão

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (196)


eternidade breve

0  ahcravo_DSC_6111 bw

chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos

pesava  3,655 quilos
media 50,5 cm

isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser

é o tempo depois
de o meu tempo se acabar

a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira

são a minha
eternidade breve

0 ahcravo_DSC_6111

(torreira; regata do s. paio; 2014)

crónicas da xávega (144)


tarda o sol

00 ahcravo_DSC_5730 marco 09 bw

na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem

há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem

apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos

o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe

tarda o sol

00 ahcravo_DSC_5730 marco 09 c.jpg

(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

00 ahcravo_DSC_9863 hc
regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente

crónicas da xávega (143)


crescer com a xávega

0 ahcravo_DSC_9584 bw
não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem

trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram

o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos

não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

0 ahcravo_DSC_9584

(torreira; companha do marco; 2013)