fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)

fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)

porque não sou deus
(deus escreve direito
por linhas tortas
diz o povo)
porque não sou
deus
tento sempre
escrever a direito
e sai-me quase
tudo torto

(torreira; 2012)
como se
como se dança
os corpos
como se música
os sons
como se agora
o antes
como se aqui
o longe
nada mais falso
que o óbvio

safar redes é trabalho de casal
(torreira; safar redes; 2013)
oiço-te
escuto nas mãos
as vozes por dentro
oiço-te

(torreira; 2013)
sonhar

ser eu criança
o mundo
caber-me na mão
sonhar é o caminho
onde
começa o amanhã
ser todo o tempo
agora
eu criança sempre

(torreira; regata da ria; 2013)

o moliceiro “Dos Netos”
o momento
o momento não é
errado nem certo
o momento é
substantivo e absoluto
adjectivá-lo
é querer ser dono
do impossuível
sê o instante pleno
o momento

(torreira; 2013)
não te preocupes

ninguém te escreverá
para a tua última morada

(torreira; 2013)
não sei
a música dos corpos
a sinfonia
o esforço conjugado
a equipa
recordo a mesa posta
a família
a meta aproxima-se
o desfecho
não sei do vencedor

(torreira; corrida de chinchorros; 2012)
da partida
o fechar da porta
tantas portas
no fecho de uma só
o olhar último
antes de
guardado para
as falas do tempo
memórias
de dias tantos
não sei se sabes onde
o sol vai nascer amanhã

(torreira; 2012)
moliceiros na ria

lavrar a ria
foi sina de um povo
que atravessou o mar
reviver
a memória as raízes
é sermos
escrevê-lo
é haver aqui
neste tempo hoje
moliceiros na ria

(torreira; regata da ria; 2010)
