de palavras
de palavras farás
a casa
nela habitarás
nu
despido de tudo
cheio
de ti

(torreira; 2013)
de palavras
de palavras farás
a casa
nela habitarás
nu
despido de tudo
cheio
de ti

(torreira; 2013)

renascer
impossível reconstruir
a ponte
a tempestade caiu brava
imprevisível
sobram destroços
pedaços de memória
ilusões desfeitas
caminho
costas voltadas
ao que foi
urgente renascer

(torreira; safar caranguejo; 2012)
diálogo com álvaro de campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
nem isso álvaro
nem isso

(torreira; 2013)
recuso
recuso que me roubem
a terra que me deram
que herdei
recuso deixar de ser

o arrais joão da calada, a reparar redes
(torreira; 2013)
murtosa

é esta a terra
que navega
com um barco
no coração
escrevo moliceiro
com m de murtosa
escrevo murtosa
com m de moliceiro
confundo-os

(torreira; regata do s. paio; 2010)
ainda
estarei onde
os olhos poisarem
serenos de
sou o que regressa
por ser
esta a terra o mar
as gentes
vivo onde estou
sou onde sinto
um sorriso
questiona-me
já por cá
ainda

os “henrique gamelas” pai e filho
(torreira; cabrita baixa; 2012)
as mãos
as mãos
chegam pela manhã
a carícia
quanto partem
dizem em silêncio
a dor de
as mãos que dei
não esperavam nada
nem o que recebi
poucos são os
finais felizes

(torreira; 2016)
agostinho
vejo-te e sei-te
agostinho
não há búzios
aqui
ouve-se o mar
em directo

o meu amigo agostinho canhoto e o bordão
(torreira; 2013)
o meu tempo

enraizadas na água
antiquíssimas
as vozes dos mortos
sem rosto
iluminam caminhos
gastos
de tanto os refazer
há um tempo sem
tempo
por dentro de todas
nele habito para ser

(torreira; regata do s. paio; 2011)

inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)