não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
eis o poema
semeia as palavras
ao sabor do sentir
sê nelas
revê-as com a razão
encontra-lhes ritmos
os teus
refaz depois a sementeira
mas cuida de quem
a poderá colher
de nada servirá
o que semeares
se não for colhido
caminha pela areia
carregado e sereno
eis o poema

(torreira; 2012)
de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
bem hajam

vivo e escrevo
sempre a direito
por isso recebo
tantas
respostas tortas
bem hajam

(torreira; largar da solheira; 2010)
aturem-me

escrever no tempo
em que me inscrevo
é recusar ser folha
que o vento leva leve
é ser ainda a pedra
na vidraça dos dias
no charco dos conformados
dizer com voz firme
estou vivo porra
recuso-me a morrer
antes
de estar morto
aturem-me

(torreira; regata da ria; 2013)
Breve súmula do evento
A procissão dos barcos pela Ria no Dia de Corpo de Deus, começou a ser realizada em 2010 e partiu da iniciativa do Padre Abílio Araújo – pároco da Torreira. A finalidade é envolver a comunidade piscatória com a comunidade das Quintas, em cuja Capela da Sra da Paz é celebrada a Eucaristia, durante a qual comungam todas as crianças que fizeram a primeira comunhão nesse ano.
Ao princípio da manhã saem da Torreira dois moliceiros, um com as crianças que vão comungar e os seus acompanhantes e outro com o Padre Abílio, o diácono e os acólitos. Os pescadores vão nas bateiras e nas chatas.
No fim da eucaristia realiza-se a procissão entre as Quintas e a Torreira.
Normalmente, no regresso, à frente vai um grupo de acólitos numa bateira, com a cruz e as lanternas, num moliceiro o Padre Abílio com o diácono e o restante grupo de acólitos, as crianças vêm todas juntas noutro moliceiro.
Procurei nesta pequena reportagem, realizada em 2017, filmar a procissão na ria e mostrar como ela pode ser uma festa e uma celebração de fé da comunidade piscatória da Torreira.
(o meu agradecimento a Lucinda Barbosa, Presidente da Junta de Freguesia da Torreira, pelas informações que possibilitaram a construção deste descritivo)
dos deuses

como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
vejo o bisturi cortar
preciso
os mais ínfimos
detalhes
matando os deuses
sombras caminham
sombras
que sombra fazem
nada mais
como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
os deuses
também morrem

(torreira; 2011)
ser da terra

ser da terra
não é por nela
berço ter tido
ser da terra
porque herdada
sabe a monarquia
em tempo de república
seja a gente da terra
a fazer-te um deles
ou negar-te
sê e faz
hoje sou vela e vento

(torreira; regata da ria; 2010)

redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
para a ana
os anos passaram
rolos de corda
de uma outra safra
lembro-me de ti
e do alfredo
a teus pés menino
quantos rolos ana
quantas safras
o alfredo a crescer
a cada ano
um homem grande
o teu filho
menino por dentro
a sorrir
hoje lembrei-me de ti ana

(torreira; 2010)