a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; junho, 2017)
arrancaram-lhe as raízes

arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel
chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua
sabias que se pode gelar de verão?
não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

(torreira; 2013)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
dúvida

a linda e o trovão cirandam ameijoa, sem qualquer dúvida
as palavras saram
as feridas do silêncio
ou
será o contrário
(torreira; 2016)
o caminhar

arribam as mangas
o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso
segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha
saberás então
se apenas sombra o homem
no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo
(torreira)
a memória

o carregar do saco seco na zorra
a memória escreve-se
na areia e vai com o vento
não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando
saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo
aceito
como aceitarei
o não os saber
sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei
olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro
assim como não estarei
(torreira; 2016)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; junho; 2017)