crónicas da xávega (207)


a memória

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o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)

mãos de mar (23)


de tanto dares

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de tanto dares
a mão
ficaste sem ela

deste porque sim
receberam porque também

não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro

mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo

coisas de galinhas
ou galos de capoeira

(costa de lavos; companha do armando; 2017)

joão da calada, o meu arrais


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há registos difíceis de fazer, há outros que nunca imaginámos conseguir fazer, este é um deles.

o joão da calada, amigo de há quase 30 anos, veste bem a alcunha da família, é difícil ouvi-lo falar para uma gravação ou deixar-se fixar numa fotografia. a forma como acedeu a ser filmado é, por si só, outro filme.

foi o arrais da primeira companha que acompanhei, é o meu consultor quando tenho dúvidas – nunca deixou de atender o telefone e dar-me o esclarecimento que pretendia.

é o meu arrais e …. desta vez deixou-me fazer o filme possível e as fotos que nunca pensei conseguir fazer. não são os ideais, mas para mim, são um abraço, o maior abraço que o meu arrais me deu.

bem hajas joão da calada.

 

(torreira; 13 de junho de 2017)

 

 

“olhar a xávega” no Monte Branco Caffé


não vou esquecer o dia 3 de junho

não vou esquecer a afavm

não vou esquecer os amigos que lá estiveram e os que por motivos de ausência do continente não puderam estar presentes e mo comunicaram

não me vou esquecer dos que não tendo sido convidados estavam na sala e só saíram depois de terminar

foram 2h30m de emoção e alguma fotografia

esta tem 45 anos, foi produzida por mim do negativo ao papel, na murtosa

abraço os que me abraçaram

007 Scan20111 carregar mangas

o carregar da rede

crónicas da xávega (202)


Portaria nº 172/2017, de 25 de maio

https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/107078027/details/maximized

0 ahcravo_DSC_9870 bw
porque vale a pena bater o pé e ficar firme

(E … finalmente há um governo que entende e publica uma portaria que responde ao proposto.)
Façamos um pouco de história.

2011 – A polícia marítima, a GNR e as autoridades em geral fazem um ataque/vigilância cerrada às capturas das companhas por causa das dimensões do pescado e, em quase todas as praias, há multas, apreensões, destruições de peixe.

(Convém lembrar que a vinda de peixe miúdo nas redes sempre foi uma preocupação para os pescadores era, como me dizia um pescador, “o pão de amanhã”. Assim, e por tradição, se o primeiro lanço da manhã dava muito peixe miúdo, fazia-se a venda e só se fazia novo lanço na maré da tarde. Era tradição e um acto de sabedoria).

Num país em crise onde havia gente com fome e instituições a pedirem apoio alimentar, assistia-se à destruição de peixe fresco de qualidade e que estava, irremediavelmente MORTO. Propuseram os pescadores que fosse entregue a instituições de solidariedade social, propuseram….

2012 – Reúnem-se na Praia de Mira, em Julho, arrais de companhas de todo o país, de Sesimbra a Espinho. Aí dizem de sua justiça e pedem que se aplique a tradição. Dei nota do que lá se passou e de imediato sucedeu, nas publicações https://ahcravo.com/2012/07/17/querem-matar-a-xavega/ https://ahcravo.com/2012/07/30/ponto-de-situacao-sobre-a-xavega/

Em finais de Novembro nasce a Associação Portuguesa de Arte-Xávega (APX) com sede na Praia de Mira e de que é presidente o arrais José Vieira. Pela primeira vez os pescadores da xávega se unem em associação.

2013 -Através da portaria nº 4/2013 é criada a “Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte Xávega”, constituída por técnicos e representantes de autarquias e pescadores, a qual apresenta o seu relatório final em publicação da “Direcção Geral de Recursos Naturais Segurança e Serviços Marítimos” em 4 de junho de 2014.

A primeira recomendação foi:

[a Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte-Xávega] pronunciou-se a favor da adoção de uma medida de exceção que permita a venda do 1º lance, mesmo que constituído por exemplares subdimensionados, partilhando nesta matéria a posição já assumida na Resolução nº 93/2013, da Assembleia da República

Estas muitas outras recomendações foram entregues ao governo de então.

2015 – Responde o governo, em 2015, com a publicação da Portaria nº 17/2015, de 27 de Janeiro, em que se refere somente à autorização de utilização de 4 tractores por cada xávega ….. será preciso dizer mais?

(No verão de 2015, na praia da Torreira, perguntei a um investigador da Universidade de Coimbra que fazia trabalho de campo no âmbito de um estudo sobre a sustentabilidade das pescas, celebrado entre uma entidade da Praia de Mira e a Universidade de Coimbra, se não estava em perigo a continuação da Arte-Xávega – considerando que o arrais Marco Silva pretendia construir, como construiu. um barco novo – a resposta foi: eu não arriscava.

Perguntei ainda porque é que o carapau na nossa costa tinha de ter o tamanho mínimo de 12 cm e no Mediterrâneo 9 cm, qual a justificação científica? Não sabia.

Perguntei se sabia dos desperdícios em peixe subdimensionado, e deitado pela borda fora pelos arrastões. A resposta foi: isso nós sabemos muito bem.

Não perguntei mais nada)

2017 – Portaria nº 15/2015, de 25 de maio!!!!!!!!!!!!

Estão de parabéns os pescadores da Arte-Xávega, está para já afastado o medo da proibição do exercício da arte e, embora a legislação não corresponda totalmente às suas aspirações – haverá alguma que o faça? – responde à primeira das propostas de 2014 da “Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte Xávega”.

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o meu amigo agostinho trabalhito (canhoto)

(torreira; 2010; agostinho trabalhito)