a limpidez do pescador


ti antónio neto (falecido)

 

o tempo passa

não a imagem onde já

nada mais que um nome

reconheço-o

basta-me olhar

 

virado ao mar

sempre

espera

esperou sempre

e sorriu

sorriu muito

 

na espuma das ondas

há um sorriso seu

ainda a boiar

lava-me as mãos sujas

da cidade

com a limpidez

do pescador

que já foi

 

é assim

o tempo de ter sido

no ser hoje ainda

 

(torreira, 2009)

palavras


 

 

orvalhadas

palavras

entre os teus dedos

(sente-as)

 

uma brisa

levá-las-á

para o mar

(deixa-as)

 

sobre as ondas

poisarão

imaculadas

em bando

(olha-as)

 

será este

o poema

que nunca escreverás

(lê-o)

são rosas mãezinha


são rosas

mãezinha

as nossas

ainda em botão

vermelhas

como tu gostas

como nós gostamos

 

sempre em botão

nós para ti

com alguns espinhos

que tu amorosamente

perdoas

 

são rosas

mãezinha

os teus filhos

os teus netos

as tuas bisnetas

são rosas mãezinha

 

não de estufa

como as rosas

que todos os anos

sempre que é data

em ramo florido

te ofereço

 

são tu

para além de ti

as tuas rosas

mãezinha

regresso ao além-tejo (sonho)


 

saudades do sul

das searas

e das mãos que trabalham

o barro

 

saudades do sul

e do roxo das uvas

brancas nos cachos

 

saudades do sul

e do pão

do sabor do chouriço

pendurado na fatia grande

do pão para todos

 

saudades do sul

em chegando ao barreiro…

que agora fica não atrás

mas à frente

porque

ao contrário da canção

agora o tejo vai ser atravessado

e o além-tejo mais próximo

 

saudades do sul

que acabam