os moliceiros têm vela (40)


de bico amarelo

cá te espero

cá te espero

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

o silêncio
quando necessários
os braços

ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

de bico amarelo
na armadilha
os embaraços

pássaros muitos

que ria sem eles?

que ria sem eles?

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (39)


dos mandantes

do mesmo tamanho, só a distância ilude

do mesmo tamanho, só a distância ilude

terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes

são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão

são apenas
mandantes por mandato
mandatados

velas ao vento e todos pelo mesmo

velas ao vento e todos pelo mesmo

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

à conversa com mestre joaquim raimundo ( pai) – conclusão


mestre joaquim raimundo "o velho"_foto de sérgio paulo silva

mestre joaquim raimundo “o velho”_foto de sérgio paulo silva

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

….

conclusão

…..

– E eu, e é verdade, ele ainda havia………estaleiros mais importantes, navios para o bacalhau, na Gafanha.

– (M) Os Mónicas.

– Os Mónicas, de norte a sul…

– (M) E traineiras. E fez uma caravela, que a gente foi ao bota-abaixo e ela virou-se, uma caravela muito importante, e ele a chorar, aquele homem !, porque ele sabia que ela ia cair, mas o engenheiro…

– Os mestres sabe mais!

– (M) os mestres sabe mais c’ós engenheiros!

– Têm a práctica.

– (M) Têm a práctica, sabem.

– Pousava pouco na água. E depois, aquela ré muito puxada, muito alta, embora…

– (M) Só esteve para aí um segundo…

– E depois ela foi abaixo. Nunca botou um navio abaixo, pois não? No fim aquilo está tudo engraxadinho, corre a corda abaixo, corta-se-lhe a corda, ela aí vai. Ela chegou, esteve direita um bocadinho, foi daqui muita gente do Bico, naquele tempo, muito marítimo, fomos de barco. Num faltavam barcos…

– (M) Aquilo era uma festa que Deus me livre!

– …uma caravela! Esteve um bocadinho, pronto… Num morreu ninguém. Foi muita gente dentro. Se não estavam lá os botes da capitania…Estava lá tudo, estavam os do Estado…

– Isso em que ano foi?

(Hesitam os dois)

– Foi no tempo do Salazar.

– (M) Nós eramos novos…

– Depois, depois repararam-na outra vez. Foi puxada……um lastro, um peso, um lastro muito pesado, muito pesado para ela se segurar, para ela se poder segurar, que aquilo era uma obra prima, não era como esta que foi agora….muito pesado, como se costuma dizer, que a cabeça pesava mais c’ós pés, caiu p’ró lado.

– (M) Deitou-se!

– Era muito linda, era!

-(M) Foi pr’aí há sessenta anos, que os meus filhos eram pequeninos. O meu filho tem 63 e estamos casados há 65. Deve ter p’raí!…

(Fim da gravação)

ESTAS ENTREVISTAS

Estas entrevistas carecem dum pires de palavras. A que ao escritor Manuel Mendes, faz parte do seu livro Os Ofícios que foi publicado em 1967 na Seara Nova. Foi o estarrejense Olívio Amador que ma assinalou, oferecendo-me a obra.

Sabendo que Manuel Mendes nos tinha deixado há já bastantes anos e da extinção da Seara Nova, tentei junto da Soc. Port. De Autores localizar herdeiros. Como resposta disseram-me que desconheciam o autor! Ainda lhes referi o belíssimo livro que ele tinha escrito, a biografia de Aquilino, escrita em tempos adversos, mas nem assim… Tentei então junto do Engº Aquilino Ribeiro Machado mas, já doente, não me respondeu, sucedendo o mesmo com Urbano Tavares Rodrigues.

Quanto às que eu próprio fiz, faziam (fazem ) parte de um projecto antigo em que tive a ilusão de escrever sobre a Ria, os moliceiros e quanto a eles se ligava.

Volvidos tantos anos de limbo, tenho a lamentar a pobreza de equipamento de que dispunha e não as ter melhorado, na altura, insistindo, massacrando os Mestres. Mas eu trabalhava, ocupava-me, quer na fábrica, quer em casa, demasiadas horas por dia e debatia-me com muitas camisas-de-força que me castravam sonhos e vontades. Mesmo assim alguma coisa terá ficado que poderá aproveitar a quantos se interessem por estas coisas.

Na sua leitura, mesmo que desatenta, salta aos olhos que faço perguntas palermas, umas; perguntas que denotam forte ignorância, outras. Mas obedeciam todas ao mesmo propósito, de levar a água aos moinhos que eu queria.

Ficamos a perceber que os futuros carpinteiros navais ( o que também acontecia em tantas e tão variadas profissões ) iam trabalhar em plena infância e, em vez de receberem um salário, por magro que fosse, ainda tinham que pagar… As biografias de Miguel Torga, de Ferreira de Castro, entre outros, contam-nos como emigraram ainda verdes para o Brasil profundo, para cumprir trabalhos que nada tinham de doce ou de mimoso. Os rapazes pagavam porque estes eram, no tempo, bons empregos, já que os demais eram absorvidos pelas obras e, sobretudo, pela agricultura. Pagavam os pais ou os padrinhos, e tinham que afinar as orelhas e andar ligeiros. “ Para os filhos dos homens que nunca foram meninos…”, dedicou assim o seu Esteiros o escritor Soeiro Pereira Gomes – e estes, os nossos grandes carpinteiros navais, fizeram parte do lote…

Fala-se no pau-de-pontos. Cada Mestre tinha os seus. Cheios de marcas feitas a canivete, tudo correspondendo às diversas medidas requeridas para a construção dos seus barcos. Ao tempo, quem vendia a retalho, tinha um metro de pau. Ia-se comprar panos para fazer roupa e o metro estava marcado no balcão, com dois entalhes feitos a navalha. Mas o pau-de-pontos fala-nos mais fundo. Quem é tinha letras redondas? E metros para medir? Por esses anos dourados dos nossos barcos, a quase totalidade das pessoas envolvidas na sua construção, não sabia ler nem escrever. Metros havia-os, sim, de madeira, desdobráveis, no bolso do Mestre. Mais tarde haveriam de aparecer os mais duradouros, de alumínio e, mais tarde ainda, as fitas métricas mas, já onde ia a construção naval… Fabricantes de móveis, armazenistas, outros, ofereciam-nas como brinde, como outros ofereciam isqueiros ou esferográficas. Ou compravam-se por tuta e meia nas lojas dos trezentos ou nos chineses. Mas, onde ia já a construção naval! A vara de pontos ajustava-se às carências e não dava margem para enganos.

Merece também especial atenção a referência aos serradores. Recordemos que estamos a falar dum tempo em que não havia moto-serras e as serrações com Charriots não moravam por cá. Derrubar um pinheiro multisecular não demorava o tempo de se fumar um cigarro, como hoje demora.

O transporte desses pinheiros merece que a nossa imaginação se espraie… Um desses pinheiros, de que aqui vos deixo imagens, viveu incontáveis anos na curva antes de chegar a Albergaria-a-Nova, quando a estrada era de paralelos, na curva onde agora costumam estar putas à pesca de clientes. Medi-o na base: quase nove metros. Deixei para mais tarde melhores medidas mas, duma semana para a outra, desapareceu sem deixar rasto. Daria boas tábuas, do meio, para fazer nascer um moliceiro, aquele bicho… E derrubá-lo? E trazê-lo para o estaleiro? Os Mestres falam-vos disso. Referem trabalhos do, quer dizer, terríveis. Estradas que nem sequer de paralelos eram, quanto mais de macio alcatrão… As fotografias com que auxilio a vossa imaginação foram tiradas ( a que tem duas juntas e onde se percebe a existência duma terceira ) na estrada onde hoje se situam os transportes TJA e obtive-a por gentileza do António Augusto, a quem Arlindo Cunha a tinha cedido; a outra é do Pinhal de Leiria, de Raúl Gomes Lopes, e foi-me cedida pela minha amiga Engª Graça Domingues, da Plimat (Marinha Grande). Nesta, a suportar os toros, vê-se ao fundo uma estrutura a que se chamava, em Salreu, chideiro, palavra que não encontrei no dicionário e que poderá não ser correcta. Nessa minha aldeia todos chamam robacos aos peixinhos do rio quando, correctamente, deviam dizer ruivacos. Coisas… Por vêzes, para aliviar o gado, usava-se amarrar o toro ao cabeçalho do carro, com correntes, puxando os animais pela ponta do toro, não invalidando a utilização do tal chideiro na traseira, onde era mais pesado.

Resta acrescentar que a Caravela, a que se referia Mestre Raimundo, era a Nau Portugal. Nas páginas do Arquivo do Distrito de Aveiro há um precioso trabalho sobre o acontecimento, suportado por várias fotografias. Tudo o mais fala por si. E agora, como para tudo quanto tenho feito, podem-se bem copiar as palavras de D. Francisco Manuel de Mello ( 1608-1666 ) : “ Da infelicidade da composição, erros da escritura e outras imperfeições da estampa, não há que dizer-vos: vós as vedes, vós as castigai.”

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) – 3


mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

mestre joaquim raimundo cedida pela filha, natalie serra

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

……

– E era isso que conservava o barco, era só para isso?

– Era para conservar, pois.

– Mas só punham isso, não punham mais nada?

– Bem, na construção dava-se sempre antes de começar a pôr o tabuado, depois de ter as cavernas todas, dava-se sempre, que isso em geral eles até pagavam por fora, sempre, também era uma bagatela, um bocado de pingue de carboril misturado com azeite de peixe.

– Azeite de peixe?

– De carapau, daquele que usava naquela altura para pôr no breu, no breu preto e no breu fino, levava azeite de peixe senão era muito seco, não se podia dar…..se pusesse demais pegava-se às mãos, e se fosse de menos era muito seco, o escopeiro, o escopeiro que era o pincel, era feito de lã, de lã de carneiro…

– Ainda hoje se usa isso.

– Pois, pois. Para poder dar o breu, pois. Que eles agora já uso mais os….eu já tenho visto barcos pintados aí, barcos novos, os moliceiros, já não põem o breu, o pez louro, fino. Pinto-os à tinta, agora por cima, para caminhar, tanto na proa, para andar em cima, como nos bordos, tem que ser desse breu e com uma farinhazinha, farinha de madeira, de pinheiro, para não escorregar.

– Serrim…

-Sim, pois, para não escorregar. A gente guardava sempre no verão. Isso não faltava aí, para ter seca de inverno. Os serradores faziam muita farinha.

– E as pinturas? Quando você era miúdo já existiam as pinturas nas proas dos barcos?

– Já, já, isso já vinha do tempo do meu visavô, isso já vinha de toda a vida. Que os barcos antigamente eram muito mais baixos de proa. Não eram tão bonitos. Depois foram indo, foram indo, então o meu avô já foi indo, depois o meu pai mais, e eu ainda mais mas depois também chegou uma certa altura que eu disse : agora está aí, não pode haver melhor, não pode ser mais bonito. Mesmo os donos diziam “ Oh Sr. Joaquim, mais um bocadinho, eles também pediam, não é

– E porque é que os próprios que os utilizavam no moliço queriam que eles fossem mais altos de proa?

– Pois não sei. Para ser mais bonitos ou sei lá…

– Mais bonitos ou para andar melhor à vara?

– Por acaso até quanto mais arrebitados fosse mais custava a subir para botar à vara, quanto mais arrebitados fossem mais se subia, lá para cima.

-Você tem aqui no seu livro de registos, você tem que guardar isto sempre,…

– Pois, eu guardo.

– Isto foi quando começou a trabalhar por conta própria?

– Foi, pois.

– Desde pequeno…não estão aqui aqueles que fez a trabalhar com o seu pai…

– Ah, pois não. Desde o primeiro, quantos eu ajudei a fazer? Ui, ui !…

– Diz aqui: “Principiei em Abril de 1933”…

– E trinta e três…

– E começou a fazer um barco mercantel de 25…..para João…

– João da Albina. Dois contos e seiscentos.

– Custou naquele tempo.

– Pois, um barco mercantel. Que era quase sempre aproximadamente o dobro dum moliceiro. Hoje um moliceiro custa 1.500 contos, que é o que o meu sobrinho tem feito; eram agora precisos 3.000 contos para um barco mercantel.

– Depois fez a seguir um de 27. Isto de 27 o que é?

– Vinte e sete cavernas, era maior. Havia de vinte e cinco e vinte e sete.

– Para Agostinho Tróia.

– É verdade, tinha vindo da América.

– 2.800…

– É verdade, tinha vindo da América no tempo da crise, não havia trabalho e ele mandou fazer um mercantel, que era a arte dele.

– E depois fez um barco moliceiro para José Ribau…

– É verdade, também tinha vindo da América no tempo da crise.

– 1.550…

– Já ia a subir, já…

– Já estava a subir. Ia muito devagarinho. Ia muito lentamente.

– A seguir fez outro e levou mais cem escudos, naquele tempo…! Para Manuel Carlos.

– Também veio da América. Veio muitos, muitos nessa altura, não havia lá trabalho e eles vieram embora.

– Uma bateira mercantela. Não é a mesma coisa que um mercantel…

– É mais ou menos o mesmo feitio, mas não é… já não tem os bordos de andar por cima. Isso era para a Torreira. Levava uma falca alta, depois não se podia andar por cima porque tinha mais ou menos esta grossura, não se podia andar por cima dela, depois levava umas pranchas ò través e umas tábuas ò comprido para eles andar. Por dentro da falca é que caminhavam.

-Uma caçadeira de 10 para António Maria Amador…

– Dez cavernas.

– Cento e noventa escudos…

– Pois.

– Era como essas bateiras que se usam agora?

– P’rá pesca.

– P’rá pesca?

– P’rá pesca essas bateirinhas pequenas, cento e noventa escudos.

– E depois vai por aqui fora. Qual foi o seu record assim a trabalhar por ano?

– O que eu fiz mais foi 13 moliceiros, se não estou em erro, 3 mercanteis e 5 bateiras.

– Num ano só?

– Só num ano.

– Mas tinha pessoal a trabalhar por sua conta…

– Pois tinha, tinha. Mas nunca tinha muitos operários, nunca tive mais que três operários, fora serradores. Esses trabalhavam pr’ós estaleiros todos . Eu não era capaz…eu não era capaz de sustentar um serrador.

– Pois!

– Serrava as tábuas e depois iam para os outros, esses serravam para quem tivesse necessidade, pr’ó meu pai, pr’ós outros, pr’ós fregueses.

– Depois ainda trabalhou em 1959. É o último ano que tem aqui de registo.

– É. Depois fui para a América em 60.

– Em sessenta…

– O trabalhar foi aqui. Lá foi só oito anos e meio.

– E depois, quando voltou, nunca mais pegou na arte…

– Não! Não!

– Acabou porquê?

– Pois. Então eu vinha da América outra vez agarrar-me à arte?! Desmanchei o estaleiro, mandei fazer a garagem para pôr o carro.

– E agora já não tem nenhum. Aqui à sua beira havia tantos estaleiros e não há um único!

– É verdade, havia ali um, logo ali à direita quem bate na estrada que vem de Estarreja à Murtosa.

– Pardelhas?…

– Esta estrada que vai dar ali saída da …

– Santa Luzia?…

– Quem corta para a esquerda, que ainda lá está um neto, filho duma prima minha, que é o Àlvaro, está lá com um café…

– Tem uma loginha, tem um café…

– Exactamente. Lá era o estaleiro do avô dele, o irmão do meu pai, José Raimundo.

– Porque é que lhe chamam Raimundo se você não é Raimundo de Graça?

– Já, já… e vem do meu bisavô que esse era Agostinho Raimundo de nome. E depois chamavam José Luís Raimundo ao meu avô, que ele era José Luís Henriques. O Raimundo era de alcunha, não é…

– Ah! Raimundo é alcunha…

– Porque Henriques há muitos. E na Murtosa se perguntar por Joaquim Raimundo sou só eu. Era o meu pai e eu e o meu filho. Eram três. Agora estou só eu. E Henriques, há muitos Henriques, Joaquim Henriques lá para Pardilhó ou……fica tudo de boca aberta, não são capazes de dizer que sou eu. Se for Joaquim Raimundo isso no concelho todo num há, tudo me conhece, tudo, tudo, pelas Quintas, pela Torreira, às vêzes eu tenho de perguntar quem eles são porque eu não os conheço, gente nova.

– Então e a maior parte desta gente que aqui está, que foram seus clientes, estes que estão aqui registados no livro, esta gente já quase…

– Agora desde piqueno eu quantos barcos eu ajudei a fazer e a pintar, ui Jesus! Até aos 23 anos.

– E aquele símbolo na ré do barco?

– É no leme.

– É no leme. Cada construtor tinha a sua divisa?

– Pois. O meu pai era um triângulo completamente. Muito fácil. Ou pintado de vermelho ou de verde. O pessoal, os marítimos olhavam para o barco e já sabiam que era do Joaquim Raimundo. O meu tio Júlio, esse herdou o do meu avô.

– Essas divisas ou se faziam ou herdavam-se?

– Atravessou o, o … pelo que o meu avô deixou de trabalhar, num podia, e o meu tio Júlio, que era a seguir ò meu pai, ficou lá sempre em casa. Levava, por exemplo, um…através…um leme assim, e assim, mais ou menos, assim isto, pintado em branco, e depois aos cantinhos verdes e vermelhos, verdes e vermelhos, cada um estudava a sua. E depois eu lembrei-me da minha, para ser diferente de todas, desenhei esta, que era a mais bonita de todas. Que depois mais tarde que até eu deixei de fazer, até os Garridos de Salreu também, que havia lá dois, principalmente um que fazia moliceiros, José Luciano Garrido, não se recorda?

– No esteiro?

– Sim, não se recorda?

– Não. José Luciano Garrido, não me lembro. Ainda lá vivem Garridos no esteiro…

– Pois, é família.

– Pois, ainda têm, ainda hoje vendem lá sal…

– É família!

– Ainda têm negócios antigos…

– Ele tinha um filho na Venezuela também, que foi para a Venezuela, que chegou a estar aqui comigo, mais um rapaz de Salreu que está aqui casado com uma parenta minha. Vem cá todos os anos do Brasil, que é filho…

– (M) Ele chama-se José Nunes da Silva.

– E o pai era empregado nos caminhos de ferro, ainda é vivo. Até foi operado à vista já aqui há anos e vem estar, agora não sei que ele agora é frio, mas à tarde no cruzeiro, assentar-se ali com uns amigos…

– (M) Está lá, está! Que ele mora lá diante, um bocado.

– Lá diante, para baixo…

– (M) Conhece um filho dele que está no Brasil? A sogra dele era minha prima…É dono daquele prédio, à direita.

– Somos muito amigos, como irmãos. Ele vem cá todos os anos. Para embarcações de ria era o meu, era o número um. Não é por ser meu pai. E era! Depois eu é que o ultrapassei. Fui o único. Ainda fazia melhor que ele. Ele ia ficando mais velhote e…

– (M) Ele morreu novo, também. Morreu com 71 anos.

divisa do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo

crónicas da xávega (42)


e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

dos meus

algures terá havido um começo
um instante inicial em que
não sei como nem porquê
o primeiro arribou

terá encontrado meios de vida
pão para a fome e tecto ergueu

desconheço-lhe o nome
como quase todos os que
fundas raízes buscam
na vã procura do início

ser hoje aqui
é sempre ser o primeiro
ou não ser
mais do que a continuação

recuso ser mais um
mesmo se
podendo ser o último

ahcravo_DSC_9393_mão de barca_marco 14
(torreira; companha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (37)


coisas da terra

há-de ser .... há-de ser

era bom que fosse …..  virá o vento e ….

sou da terra
logo posso

(e não há regras
princípios termos)

sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido

(e não há regras
princípios termos)

vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu

estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo

por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra

por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto

fico como vou

mesmo assim, sempre belo

mesmo assim, sempre belo

(murtosa; regata do bico; 2012)