penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
até um dia

o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador
não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles
são o silêncio
o murmúrio
a resignação
falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será
esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles
têm no rosto escrita
a vida
até um dia
serão apenas
o país profundo
até um dia

dar-lhes voz
(torreira; companha do marco; 2013)
cabrita alta

joão manuel dias
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?
os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas
tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados
o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
quero que os sintas
ao leres

no fundo da ria e cabrita arrasta
(torreira; cabrita alta; 2012)
tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
o cinismo reina

mãos de mar, mãos de trabalho
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado
as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos
porque não algemam
as mãos que fazem armas?
o cinismo reina

mãos salgadas, mãos de pão
(torreira; companha do marco; 2013)
ser ainda

colhe a rede onde eu colho a luz
escutar a luz
perder-me de mim
reencontrar-me
ser ainda

no silêncio da ria o joão magins colhe a rede e, com sorte, alguns chocos ou linguados
(ria de aveiro; torreira)
na lápis de memórias, no atrium solum , em coimbra, no dia 17 de março de 2016, teresa rita lopes trouxe consigo a sua última obra ” livros do desassossego de fernando pessoa” e o seu imenso conhecimento de pessoa.
ensinou-me que pior que não conhecer, é conhecer errado. ouvi-la é entrar num mundo onde pessoa é a pessoa que de facto foi, numa obra que é muito mais e diversa, daquela que nos foi dado conhecer por outros.
é para este mundo que vos convido no registo que fiz na “lápis de memórias”, em coimbra
eternidade breve

chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos
pesava 3,655 quilos
media 50,5 cm
isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser
é o tempo depois
de o meu tempo se acabar
a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira
são a minha
eternidade breve

(torreira; regata do s. paio; 2014)
tarda o sol

na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem
há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem
apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos
o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe
tarda o sol

(torreira; companha do marco; 2009)
raiva de não ser faca

regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo
ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido
o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas
raiva de não ser faca
(torreira; cabrita baixa; 2012)
quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente