postais da ria (157)


a magia da ria

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há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

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o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)

postais da ria (156)


abril vinte e cinco e os cravos

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dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso

não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto

aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves

ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?

nunca se sabe

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(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (155)


estar vivo é perigoso

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olhar para dentro de tudo

só te saberás
se tentares ser mais

o mais desculpas serão
para seres o de sempre

o do sofá da sala
do pão certo à hora certa
sobrevivente de ti

estou cansado até
ao mais fundo de mim
doo-me de tanto

estar vivo é perigoso

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fotografar é sentir com os olhos

(torreira; s. paio; 2014)

postais da ria (154)


rapar a ria

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com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.

ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas

uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.

ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.

horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.

sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.

e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.

a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.

os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

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(torreira; 2012)

postais da ria (152)


boas manel

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éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

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(ria de aveiro; cais do bico)

postais da ria (149)


ser quase nada

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a ria por destino

ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais

escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão

tantos

julgam ser
quase tudo

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henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira

(torreira; marina dos pescadores)