um a um subo
os degraus
do poema
cato palavras
íngreme
interminável
acabo como
comecei
escrevo
gaza sangra
gaza sangra
gaza sangra
(kitesurf; windsurf; bunheiro; 2013)
se pequeno é o país
serem de palavra os homens
era grandeza diversa
conquistámos a liberdade
de ser inteira escrita
dita a palavra assumida
nas brancas paredes
as palavras inscreveram
os dias sem medo
cinquenta anos depois
desbotadas paredes
envergonhada palavra
o pequeno país
de pequenos homens
é um circo falido
(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)
oração
senhora aqui estou
a pedir por ele pela família
pela empresa a imobiliária que não é
vêdes senhora que televisões
trouxe para que se saiba
do meu sacrifício da minha fé
da nossa crença ancestral
faz tudo por nós pela família
perdoai-lhe se mente
o descaramento o biquinho
as pernas arqueadas de caubói
perdoai-lhe se deixa a palavra
em casa pendurada no cabide
não é por mal senhora é por nós
é pelos encargos pelas casas
pelos clientes pela boa vida
amanhã senhora aí onde me
esperais levo-vos uma oração
por ele que não seja treze
azar na roleta mas sorte na vida
no dia dezoito que domingo é
(moliceiro; murtosa; cais do bico; regata do emigrante; 2013)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)