skim board_buarcos (6)


olhar e ver 
sentir e escrever

ferramentas-armas
as palavras

enferrujadas
algumas
tanto silêncio

onde houver
alguém que sonhe
onde houver
alguém que escreva
há perigo
de haver mudança

um perigo os sonhadores
um perigo os escritores

matai-os
ordenam os ditadores

(skimming ; praia da tamargueira; buarcos; 2011)

a beleza do sal (201)


tantos anos
tantas vidas
tanto amor

casas ruas
cidades

um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar

cidades
casas ruas

tanto amor
tantas vidas
tantos anos

mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades

a apagar a memória
a história
chamam agora limpar

assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)

mãos (13)


eu queria escrever
poemas de amor

escrever com arte
o teu corpo o meu
os nossos

escrever coisas belas
que nada dissessem
para além da beleza
que há nelas

eu queria escrever
poemas de amor

poetar
a natureza o céu
as flores o mar
e os teus olhos

num poema
pensar o mundo
sem o mundo dizer

eu queria ser poeta
mas sou apenas um ser
que olha vê sente

e não cala a raiva a lágrima
que ensopam
estes dias-palavras tristes

(solheira; safar redes; torreira; 2014)

postais da ria (546)


mar becker

com as mãos
esgaravata o chão
labuta diária

pedras preciosas
simples seixos
torrões de terra

garimpa e semeia
ciranda e lavoura
trabalha muito

dia após dia
no aparente deserto
renasce mar

a poesia acontece
no silêncio da casa
e ilumina os dias

(solheira; safar redes; torreira; 2011)

a beleza do sal (200)


espírito criativo
nunca tive
não sei o que é

por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos

fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo

no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo

meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois

atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco

(sal do mar; rer; morraceira; 2016)