como o vento
as palavras
brisa e furacão
poeta
(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2011)
olhar e ver
sentir e escrever
ferramentas-armas
as palavras
enferrujadas
algumas
tanto silêncio
onde houver
alguém que sonhe
onde houver
alguém que escreva
há perigo
de haver mudança
um perigo os sonhadores
um perigo os escritores
matai-os
ordenam os ditadores
(skimming ; praia da tamargueira; buarcos; 2011)
tantos anos
tantas vidas
tanto amor
casas ruas
cidades
um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar
cidades
casas ruas
tanto amor
tantas vidas
tantos anos
mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades
a apagar a memória
a história
chamam agora limpar
assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)
eu queria escrever
poemas de amor
escrever com arte
o teu corpo o meu
os nossos
escrever coisas belas
que nada dissessem
para além da beleza
que há nelas
eu queria escrever
poemas de amor
poetar
a natureza o céu
as flores o mar
e os teus olhos
num poema
pensar o mundo
sem o mundo dizer
eu queria ser poeta
mas sou apenas um ser
que olha vê sente
e não cala a raiva a lágrima
que ensopam
estes dias-palavras tristes
(solheira; safar redes; torreira; 2014)
espírito criativo
nunca tive
não sei o que é
por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos
fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo
no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo
meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois
atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)