os moliceiros têm vela (559)


o meu reino não é 
deste mundo
dizem que disseste

abro parêntesis
gosto muito de ler
vivo tudo o que leio
fecho parêntesis

olha meu caro
embora não tenha reino
e seja apenas aposentado
também não sou deste mundo

expulsaste os vendilhões
do templo dizem
melhor fora não que agora
não há templo que lhes baste

as águas por onde dizem
que andaste agora são
de sangue e não há peixes
pequenos só tubarões

abro parêntesis
não voltes outra vez
deixa-te estar sossegado
em belém só pastéis
fecho parêntesis

a realidade não é
um romance
é uma tragédia

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

crónicas da xávega (588)


recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música

recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo

recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores

recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco

(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)

a primeira camisa


(a minha primeira camisa; setúbal; 1951)

não havia ecografias
havia vontades desejos
palpites esperanças

queriam uma menina
talvez pelo alegre
das cores da camisa

mas fui eu
um rapaz
quem nasceu

meticuloso o pai
guardou
a primeira camisa

nome hora e local
inscritos no envelope
caseira certidão

- a primeira camisa de
nascido às
dia mês ano
rua e número de porta
setúbal -

o ano chega ao fim
a camisa e quem a vestiu
fizeram setenta e três anos

em dois mil e vinte e quatro
este ano