postais do arroz (21)


não escrevo
guardo

em branco
fica tudo
defraudo
o plagiador
obrigo-o
a plagiar
o meu silêncio

aí sim
ele é perfeito
quem não vê
a luz
são palavras
talvez um poema
hipótese remota

ganhei a batalha
daqui ninguém rouba nada
porque nada escrevi

o plagiador ganhou
a poesia talvez não tenha perdido
nada mas é assim hoje

(semear arroz; borda do campo; 2019)

crónicas da xávega (521)


dizer
o teu nome
o nome de todas as coisas
as coisas que cada nome encerra

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até que ela perca o sentido
a sua ligação com a representação

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

dizer
com palavras amo
e escutá-las
na boca do outro

(o carregar do saco seco; praia da leirosa; 2019)