a beleza do sal (88)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 1

marnoto com cunhos

no mês de agosto, na salina municipal do corredor da cobra, núcleo museológico do sal, nos armazéns de lavos, realiza-se a recriação da safra à moda antiga.


no passado dia 16 de agosto teve lugar a recriação de 2020.


os marronteiros com a ajuda de punhos, retiram o sal dos montes da última redura e carregam as gigas, que as salineiras (tiradeiras) levam à cabeça até ao armazém.


este ano, foram garantidas as medidas de segurança que o tempo exige e que podem ser vistas nas fotos que publicarei nos próximos dias.


nesta foto (primeira de uma série, que procurarei ser diária), feita antes da recriação, vê-se um marronteiro com os punhos


(salina do corredor da cobra; agosto; 2020)

os moliceiros têm vela (418)


estou vivo, tenho opinião e escrevo-a

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cais do bico; regata do emigrante; 2020

os painéis dos moliceiros têm sido objecto de estudo e até teses de doutoramento – caso de clara sarmento -, sendo as pinturas e as legendas objecto de classificação.
 
no livro ” Os Moliceiros da Ria de Aveiro – Quadros Flutuantes” , clara sarmento propõe a seguinte classificação : Jocosos (Eróticos, Instituições, Figuras típicas, Trabalho); Religiosos; Vida Quotidiana (Trabalho da Ria, Varinas, Mestres e seus Barcos, Apelos Ecológicos à preservação dos moliceiros, Festas e Cerimónias, Ditos e Conselhos); História e Personalidades (Monarcas, Descobrimentos, Escritores, Soldados e Cavaleiros, Personagens do imaginário e lazer).
 
ana maria lopes no livro “MOLICEIROS” propõe : Amorosos; Eróticos (Maliciosos); Patrióticos; Históricos; Profissionais; Folclóricos; Desportivos; Quotidiano.
diamantino dias, no site aveiro e cultura ((http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/DiamDias/Diversos/ConcursoPai.htm) propõe: Satíricos, Amorosos; Profissionais; Religiosos e Patrióticos.
 
a preservação deste património terá levado, inclusivamente, à criação dos concursos de painéis em aveiro por iniciativa do vereador arnaldo estrela santos, em data anterior a 1957 – segundo diamantino dias – e na romaria do são paio, na torreira.
 
a predominância dos painéis “Jocosos” ou “Eróticos” em relação aos restantes, verificada nos últimos anos, terá a ver, segundo o pintor josé oliveira, com os prémios pecuniários atribuídos pelos júris e que recaíam normalmente sobre estes. facto que terá levado o dono de um moliceiro a dizer ” pró ano é gajas, o que eles querem é gajas” (cito josé oliveira).
 
mas “Jocosos” ou “Eróticos” respeitavam sempre aquilo a que habitualmente se designa por “brejeirice da beira ria”, caracterizada pelo duplo sentido, pelo subentendido, pela “riqueza de interpretações de uma frase”, a que a pintura empresta mais uma interpretação dúbia, não sendo explícita, nem “para maiores de 18 anos”.
 
infelizmente a “brejeirice da beira ria”, que reflecte a velha expressão “a língua portuguesa é muito traiçoeira”,  parece estar a derivar para uma “vilhenice” de segunda categoria, para não dizer pior. se a legenda é de duplo sentido, a pintura é de muito mau gosto, de leitura única e desaconselhada “para todas as idades”.
 
em 2019 surgiu o primeiro painel com estas características, em 2020 já foram dois. por este andar onde vamos acabar?
 
não sei qual foi a classificação do júri para os painéis em causa, nem li quaisquer reparos a tais pinturas.
 
enfim, se é triste verificar que o empobrecimento dos motivos decorativos dos painéis tem a ver com as decisões do júri na atribuição dos prémios pecuniários, não podemos deixar resvalar os desenhos/pinturas para, desculpem-me o termo porque forte, a “ordinarice”.
 
(nota : não reproduzo os painéis em causa por motivos óbvios)

os moliceiros têm vela (412)


da regata da ria 2020

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regata da ria 2019; ti abílio carteirista

 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, embora sendo feita contra a maré, o vento foi bom – levou até alguns a mudar de vela – e em cerca de 1h40m estava concluída.
 
10 moliceiros de classe A e 2 de classe B. inteligente a decisão da associação náutica da torreira de dar partida em primeiro lugar aos moliceiros de classe B – mais lentos – e só minutos depois aos de classe A.
 
apenas um moliceiro ficou pelo caminho e é para ele o meu abraço, porque dos que ganham se fala, mas aos que o azar atingiu, só o silêncio e o desalento acompanham. ainda por cima para quem participa pelo prazer de velejar, sem quaisquer pretensões de vencer. acontece. por isso o meu abraço.
 
uma regata pode ser vista de muitas formas: a da beleza da ria engalanada; dos painéis … tanta beleza que os olhos captam e as máquinas registam.
 
e a regata dos homens que vão nos moliceiros e que são cada dia menos moliceiros. ainda bem, porque rejuvenescida a equipagem da frota e mais promissor o futuro, pena porque a vão abandonando os “velhos moliceiros”.
 
esta foi a primeira regata que acompanhei e em que não participou o ti abílio fonseca (carteirista) e o seu “dos netos”, e também o ti zé caneira não foi arrais do moliceiro da câmara municipal da murtosa.
 
esta foi também a primeira regata do bruno dias, que comprou o moliceiro “zé rito”.
 
junto os três no mesmo abraço, o que foi criou as raízes do que vem, ambos merecem o respeito e o reconhecimento de quem não anda nisto “só pelos bonecos”.
 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, as fotos já publicadas por muitos assim o demonstram, a reportagem de uma televisão é elucidativa. eu, com a calma que os anos trazem, só quero que haja mais regatas, mais apoios, mais gente que aceite o desafio e que os moliceiros continuem a navegar em ria aberta.
 
as fotos que fiz na regata estão à espera que eu dê ordens.
 
os moliceiros têm vela (403)

os moliceiros têm vela (403)


6 de agosto de 2006

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cais do bico; regata do emigrante; 2006

 
dia de regata do emigrante no cais do bico, como era hábito a família almoçou na tenda/restaurante da junta de freguesia da murtosa, de cujo presidente os meus pais eram amigos, mas eu não – políticas …
 
em 2005 eu tinha começado a fotografar a companha do marco, que nascera nesse ano e que acompanhei até 2016. tinha sido arrais o cipriano, que deixou de o ser em 2006, para passar a ser o marco. mas isto é uma outra história.
 
o marco e o cipriano apareceram com um moliceiro na regata, de que não me lembro o nome, e quando o marco me viu a fotografar perguntou-me se não queria ir com eles. claro que sim. saltei para dentro do barco e comecei a fotografar. faltava ainda um camarada – cada barco tem direito a três camaradas.
 
quando o terceiro camarada chegou, já o barco estava para largar. então, do seu posto de controlo, o digníssimo presidente da junta de freguesia da murtosa grita para o marco:
 
– só podem ir três no barco e estão quatro
 
ao que o marco respondeu, o que era óbvio:
 
– mas o sr. cravo só vai para fotografar
 
– conta na mesma – disse quem de direito
apesar da calmaria, eu disse ao marco que saía do barco e que ele precisava era de um camarada e não de um fotógrafo. não senhor, vai connosco – foi a resposta. e fui.
 
passados poucos minutos da regata arrancar, levanta-se nortada, quem conhece a ria sabe como é, e …. máquina para dentro do castelo da proa e o camarada fotógrafo deixou de ser fotógrafo e não sabia ser camarada.
 
só me lembro, entre outras aventuras, de o barco dar um bordo e a água começar a entrar; havia dois escoadouros (vertedouros) a bordo, o cipriano pegou no grande e eu no pequeno. toca a escoar água. até que o cipriano escorregou e caiu de costas, e eu fiquei, por alguns minutos, a tentar escoar o barco – mas era mais a água que entrava que a que saía.
 
enfim, depois de muitas aventuras, o marco ferido, o barco também, acabámos por ficar com um honroso último lugar.
 
na hora da entrega das medalhas fui eu recebê-las em nome dos três. ao fim e ao cabo atendendo à minha longa experiência – reconhecida pelo senhor presidente da junta de freguesia – bem o merecia.
 
estes anos todos passados, o cipriano morreu, o presidente da junta já não é presidente, o marco é arrais e mestre na torreira e eu vivo na figueira da foz.

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cais do bico; regata do emigrante; 2006

 

trump, covid-19 e china


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os habituais construtores de teorias de conspiração encontram em “donald” (lembram-se dele?) trump um mestre exímio.
 
se não vejamos: a culpa de a pandemia se ter espalhado pelo mundo fica a dever-se a sonegação de informação, ou a uma informação tardia da china – teoria da conspiração
 
então os estados unidos só sabem o que se passa na china através das informações que ela presta? para que servem os serviços de informação, conhecidos por cia? se não sabiam o que se passava na china, demitam-se os responsáveis, se sabiam e não o comunicaram a tempo, demitam-se os responsáveis de novo, se o sabiam e o comunicaram, então a ignorância é propositada e criminosa.
 
admitamos que a cia não funcionou – não soube, ou não comunicou. admitamos.
 
será que as decisões de trump (donald) têm ajudado à contenção do contágio nos estados unidos? pelo que sabemos, pelo que vemos, ouvimos e lemos, nada têm ajudado.
 
quem é o culpado? todo o mundo menos ele. e a organização mundial de saúde por cumplicidade com a china perde financiamento quando mais dele precisa.
 
donald é trump
 
mas, valha-nos isso, (donald) trump é louro, o mesmo acontecendo a johnson (boris) e, como não há regra sem excepção, bolsonaro moreno
 
(esta meditação não se pretende conclusiva e fica aberta a todos os contributos dos comentadores habituais)
hasta siempre luís

hasta siempre luís


hasta siempre luís

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oeiras; 25 de outubro; 2008

no dia 25 de outubro de 2008, luís sepúlveda esteve numa livraria de oeiras para autografar a sua obra.
quando o soube enchi uma mochila com livros e resolvi ir estrear a minha nova nikon d80 a oeiras, o autor de ” o velho que lia romances de amor” era obrigatório.
o dono da livraria, ao ver-me com a mochila e a saca da máquina fotográfica, perguntou-me de onde vinha e disse-o a luís sepúlveda que, depois de alguns minutos de conversa, começou a escrever as dedicatórias nos livros que eu levara na mochila.

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oeiras; 25 de outubro; 2008

perguntei se o podia fotografar, consentiu, e a seguir o dono da livraria perguntou-me se eu queria que ele nos tirasse uma fotografia aos dois.
desses momentos, ficam estes registos.
hoje, vou voltar a reler “o velho que lia romances de amor” e estar mais uma vez e sempre com luís sepúlveda

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oeiras; 25 de outubro; 2008

memórias da minha coimbra (VIII)


o kim dos ossos

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coimbra; praça do comércio; 2009

o tempo da fast food ainda não tinha chegado a coimbra. a tasca do quim, como era conhecida, era famosa pelos ossos de espinhaço de porco cozidos e condimentados à moda do quim.
foi a última tasca de coimbra. tinha duas portas de entrada: a da esquerda dava para a mercearia e da direita, uma porta de duas folhas de vai e vem, levava-nos para o interior da tasca. meia dúzia de mesas, os pipos de encostados à parede com as torneiras prontas a debitar.
começava-se normalmente com uns cricos (berbigões) abertos à quim e depois continuava-se com os famosos ossos e outros petiscos. cada um servia-se do vinho dos barris que ficavam atrás da mesa e ia marcando com um traço cada copo que bebia.
no fim éramos nós, ainda somos apesar de já não ser tasca, que dizíamos o que tínhamos consumido e assim nascia a conta.
quantas noites de violas e guitarras e poesia …..
na tasca do quim não se cantava fado de coimbra, cantava-se zeca afonso, adriano, fado de lisboa e dizia-se poesia.
conviviam estudantes, trabalhadores, licenciados…. era um sitio à parte na cena coimbrã.
encastrada na parede exterior havia uma pedra que servia de banco para duas pessoas, um belo dia sentei-me ao lado de um velhote que, pensativo, seguia com os olhos as jovens estudantes que passavam. de repente volta-se para mim e diz:
– sabe o que me custa? um gajo envelhece e elas continuam a passar sempre novas.
era assim que se aprendia a estar vivo na tasca do quim

memórias da minha coimbra (VII)


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coimbra; praça 8 de maio; a adelaide; 2014

o pinto e vítor gordo
 
 
o tropical é um café da praça da república que faz esquina mas, como a esquina estava a mais, cortaram-na. ficou um recanto acolhedor, no interior, para uma mesa, uma janela sobre a rua e, no exterior, um pequeno poial que servia de assento em dias de sol.
 
era nesse poial que eu, o pinto e vítor nos sentávamos a conversar e a apanhar um pouco de sol.
 
uma das características de coimbra é o modo como os estudantes habitam a cidade: quartos alugados, repúblicas, solares….. havia, porém, uma que era diferente, a “comuna dos galifões”, habitada fundamentalmente pelo núcleo anarquista de coimbra, na maioria rapazes bem constituídos.
 
o pinto e o vítor viviam na comuna, eram praticantes de halterofilismo e senhores de uma envergadura física de invejar. eu, com o meu 1,65m, podia bem sentar-me à sombra deles. e era isso mesmo que acontecia:
 
28 de setembro
 
– cravo, temos de ir ao josé falcão alertar a malta
– oh pá, aquilo é um ambiente tramado
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te costas
 
candidatura do otelo
 
– cravo, vamos fazer umas sessões de esclarecimento aqui à volta
– cuidado, vocês sabem onde nos vamos meter?
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te as costas
 
era sempre assim, um maoista e dois anarquistas. coimbra tem destas coisas.
 
quando acabaram o 6º ano de medicina, pediram um carro emprestado a um amigo e resolveram ir celebrar para a figueira da foz. a falta de hábito de conduzir – nessa época estudante com carro era bicho raro – o ser de noite quando saíram, uma curva traiçoeira na passagem de nível das alhadas….. e o despiste foi-lhes fatal.
 
dentro de renault 5, iam quatro. o carro incendiou-se e, segundo alguns, ainda se ouviram os gritos dos ocupantes, aprisionados dentro do carro.
 
quando o cortejo fúnebre passou em frente aos “galifões” eu estava ao lado do soveral martins, de punho erguido – caíam-nos lágrimas pelo rosto.
 
nestas memórias dei nota de alguns dos meus melhores amigos e de como sem eles coimbra para mim, já pouco tem de interesse.