esboço do agostinho


a fotografia o esboço.
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torreira; agostinho canhoto; 2013

 
o tempo escrito no grito
 
os amigos estão para além
da imagem que deles fizemos
 
são muito mais que uma foto
nela apenas o que deles vemos
sentimos julgamos saber
 
o agostinho é o pescador
é todos os que têm casa no mar
que a terra é perigosa
 
o agostinho é o agostinho
a foto é apenas um pouco dele
ou melhor é ele dentro de mim
 
nada mais que um esboço
depois da obra
crónicas da xávega (348)

crónicas da xávega (348)


ainda estou aqui
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torreira; ti alfredo fareja; 2005

 
escondi numa gaveta
todas as palavras difíceis
 
escrevi então as coisas simples
onde habita o sentir
 
a memória os amigos o tempo
entraram pelas palavras
como coisa sua
simples
 
perguntaram por mim
e com as suas palavras lhes respondi
 
ainda estou aqui
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torreira; ti alfredo fareja; 2005

 

“quando o mar trabalha” o fotofilme


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início dos anos 70

em 2018 publiquei o meu segundo livro, com o título ” quando o mar trabalha” – está esgotado. um amigo, o amigo de sempre, fez com as as fotos do livro o filme a que assististe.
mas o livro não era só fotos, eram também “falas”, por isso ficam aqui algumas palavras, algumas “falas”.
aqui ficam três
“caminho na areia
não sou daqui
estranho este chão macio
quase não chão
quero ver os meus irmãos
trabalhadores do mar
saber de outras fainas
venho de negro
a minha cor desde que
também eu amo o mar
por isso
até morrer
o venho sempre visitar “
“sou a que fica em terra
à espera dele
a que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta
sou a que grita
quando o mar está bravo
o barco sobe na crista da onda
o arrais
bota! bota! bota!
sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui “
“este rosto vos deixo em testamento
riqueza única amealhada
em vida
sou todos os que foram
fui todos os que serão:
destino com porta virada para o mar
este rosto vos deixo
de ser eu
Pescador da Xávega
este rosto vos deixo
cuidai de o não esquecer “
outras há que muitas são as “falas” das fotos
o livro entretanto esgotou, agora só juntando no mínimo 20 pedidos se podem mandar vir mais.
obrigado a todos os que me permitiram fazer este livro, editado pela ” Almalusa” que se responsabilizou pelo design também, com o empenhamento pessoal, como é hábito, do meu amigo jorge pinto guedes.

crónicas da xávega (346)


a hora do quinhão
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praia de mira; 2009

 
não têm rosto
nunca o tiveram
mesmo que o produto da sua faina
seja o mais apreciado
 
são pescadores artesanais
das artes da arte-xávega
da xávega
 
pescadores
quase todos o foram
para voltarem a ser
 
longe do mar fizeram vida
a vida que o mar lhes negou
 
regressam por vício
ou porque
como o povo diz
o bom filho a casa torna
 
é a hora do quinhão
que foi boa a pescaria
 

crónicas da xávega (345)


descrente
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costa de lavos; 2017

 
escrevo hoje o tempo
com o tempo que tenho
não será muito digo
mas é o meu tempo
 
no caminho dos dias
é nos outros que o vejo
em mim que o sinto
 
ao tempo que foi e
ontem ainda
 
gasto o tempo até ao esqueleto
branco do ínfimo segundo
 
não creio na reciclagem dos dias
também nisso a minha descrença