vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
despede-te devagar
despede-te devagar
do sol
deixa que as gaivotas
na areia
se acolham para mais
uma noite
quando tudo serenar
e do norte
o vento amainar
então parte

(torreira; o carregar do saco;2009)
da vida
(“não há ensinamento maior que o exemplo” – bruno vieira amaral)
no fim
muito próximo
do fim
desaprendi

(espinho; recriação da xávega com bois; 2012)
redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
para a ana
os anos passaram
rolos de corda
de uma outra safra
lembro-me de ti
e do alfredo
a teus pés menino
quantos rolos ana
quantas safras
o alfredo a crescer
a cada ano
um homem grande
o teu filho
menino por dentro
a sorrir
hoje lembrei-me de ti ana

(torreira; 2010)
contigo
estendo-te a mão
para que te ergas
não para me afundar
contigo

(torreira; aparelhar das mangas 2016)
ouço-te cacilda
indizível o silêncio
verbalizá-lo é negá-lo
escrevo silêncio
silenciosamente
ouço-te cacilda

mulher do mar da torreira, a cacilda
(torreira; 2016; carregar o saco)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)
judas intemporal
judas era um bom homem
tão bom
que traiu o amigo e o vendeu
na versão canónica suicidou-se
numa nova leitura com o prémio
comprou terras para cultivo
a segunda versão parece-me
mais razoável
mais do nosso tempo aqui
intemporal

(torreira; 2010)
para o joaquim rodrigues
(massa)
queria dizer-te
que te admiro
massa
não porque cantes
melhor que o zé cabra
pior é difícil
tu nasceste para cantar
não porque a trabalhar
o faças como poucos
és energia pura
não pela tua alegria
os teus malabarismos
com o bordão na praia
és um artista nato
admiro-te
pela tua força interior
pelo modo como venceste
onde tantos sucumbem
tu és enorme massa
da tua fibra muitos
houvessem
massa assim é outra massa

(torreira; arribar da mão de barca; 2012)