as mãos que

entre a mão
que te dei
e a mão
que me deste
um abismo
se lá caíres
que mão
te darão?
(leirosa; companha dos reais; 2017)
as mãos que

entre a mão
que te dei
e a mão
que me deste
um abismo
se lá caíres
que mão
te darão?
(leirosa; companha dos reais; 2017)
por mais duro

o sorriso nos meus lábios
por vezes amargo
ouve-o atento
não é fácil iniciar caminhos
mais duro sentir que terminaram
quando vires não cales
quando ouvires mostra
por mais duro
(torreira; 2014)
da areia

o arribar do saco
todos os caminhos são
de areia
quando o esquecemos
areia fomos
(torreira; 2009;
a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
arrancaram-lhe as raízes

arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel
chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua
sabias que se pode gelar de verão?
não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

(torreira; 2013)
o caminhar

arribam as mangas
o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso
segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha
saberás então
se apenas sombra o homem
no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo
(torreira)
a memória

o carregar do saco seco na zorra
a memória escreve-se
na areia e vai com o vento
não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando
saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo
aceito
como aceitarei
o não os saber
sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei
olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro
assim como não estarei
(torreira; 2016)
de tanto dares

de tanto dares
a mão
ficaste sem ela
deste porque sim
receberam porque também
não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro
mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo
coisas de galinhas
ou galos de capoeira
(costa de lavos; companha do armando; 2017)
da leitura

tivesse eu lido
o homem
como o homem
lia o mar
soubera eu

(torreira; 2016)
(re)começar

o arribar da mão de barca
depois de mim
tudo continuará
porque não
começar já o depois?
(costa de lavos; companha do armando; 2017)