crónicas da xávega (181)


recuso ser de férias

0-ahcravo_dsc_0022-bw

o carregar da rede na zorra

é tempo de olhar
de sentir tudo

o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso

fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado

recuso ser de férias

sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos

fica a memória a pairar na praia
longe

0-ahcravo_dsc_0022

veio do mar, irá agora ser entendido e secar

(torreira; companha do marco; 2016)

crónicas da xávega (179)


meditação breve

SONY DSC

carrega-se o saco para dar a volta ao barco pela ré

como areia por entre as malhas
dos dedos estes dias

tece-se a rede com fios de raiva
cansaço desespero
por vezes

caminha-se e é o mar
sempre o mar
que dá destino aos passos
não os homens

teima-se
teima-se muito
mas o carnaval é o ano inteiro
e não há máscara
que não caia ao anoitecer

acendo um cigarro
que não fumo
abro uma cerveja
que não bebo
e faço de conta que existo
para me rir de mim

SONY DSC

não há máquinas para estas tarefas: há homens

(torreira; 2010)

crónicas da xávega (174)


as palavras e as imagens

0 ahcravo_DSC_6440_2016 bw

o “M. FÁTIMA” novo e a primeira grande pancada de mar

é normal procurar imagens para as minhas palavras, mas a foto de hoje deixou-me sem elas.

há dias assim, de olhar só

0 ahcravo_DSC_6440_2016

há anos que não fazia uma foto destas. grande barco!

(torreira; 14 de junho de 2016)

crónicas da xávega (173)


estive aqui de férias

0 ahcravo_DSC_9748 bw

no verão de 2013, o cipriano carrega o saco na zorra

olhar sem sentir
olhar apenas sem pensar
estou aqui de férias

ilusão tudo o mais
para além de mim

quem cá está
cá ficará
eu partirei
sem saber se

o meu amanhã
é em toda a parte
o meu ontem
passou por aqui
o que fui é o ser
assim onde estiver

há mais mar que homens
há mais sonho que rebanhos

não preciso de pastor
basta-me o barco
que trago dentro de mim

vou comigo
para que sejam
e continuem

estive aqui de férias

0 ahcravo_DSC_9748

cipriano brandão, em 2013 (o vício do mar)

(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (170)


0 ahcravo_ DSC_6663 marco 09 bw

2009, a muleta tradicional

sou
o que se foi fazendo
os princípios sempre
as pedras e os afagos também
não o outro o que gostariam
que apesar tudo
continuasse
a ser

o que me dói ser assim
o ter chegado ao que sou
eu por dentro e por fora de mim
escrevo-o com lágrimas
e raiva raiva raiva raiva

um dia vou acordar nunca
para ser eu

0 ahcravo_ DSC_6663 marco 09

com o tempo muito se altera, as coisas e as pessoas. já lá vão 7 anos

(torreira; companha do marco; 2009)