conversas murtoseiras


ao fazer os registos das memórias de francisco faustino procurei, como é costume, fixar para memória futura as vivências ligadas à sua larga experiência de vida murtoseira.

a designação “conversas murtoseiras”, atribuída aos registos efectuados, foi sugerida por ele e vão ser objecto de uma série de clips temáticos e de dois clips que retratarão as duas conversas que tivemos e que duraram cerca de 2 horas cada.

o depoimento de vida pessoal que lhe assaquei, e a seguir transcrevo, é mais uma “conversa murtoseira” que mostra a riqueza humana do francisco e me faz sentir feliz por poder contá-lo entre os meus amigos de infância e da vida.

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“francisco valentim tavares faustino

nascido na primeira metade do seculo XX, há 76 anos, quis o acaso que tal acontecesse numa família com raízes no mar e na ria.

no mar procuraram modo de vida os seus antepassados arrais tavares, sebolões e faustinos.

neto do arrais chico (francisco faustino) e sobrinho do arrais joão faustino, acarreta essa herança que lhe moldou o espírito.

na ria labutou o seu bisavô materno que foi pescador até partir para o brasil, em finais do séc XIX, onde procurou na pesca no amazonas a sua árvore das patacas.

o local em que viu pela primeira vez a luz do mundo foi o cais do bico, numa casa mesmo em frente do antigo ancoradouro que em 1937 foi substituído pelos actuais cais.

esta proximidade com as águas da ria proporcionaram-lhe um permanente contacto com as gentes que nela procuravam sustento.

na taberna de carlos faustino, seu pai, conviveu com várias gerações de marítimos que nela iniciavam e terminavam a faina da apanha do moliço ou da pesca das mais variadas artes; na taberna compravam os camaradas os necessários géneros alimentares e o vinho para uma semana ou apenas um dia de trabalho. nela adquiriam igualmente os aprestos para o barco: roldanas, pregos, ganchos, podoas com que iam substituindo ou reparando peças deterioradas. relembra ainda que quando, anualmente, o barco necessitava de amanhação (grande operação de conservação) era nas tabernas que adquiriam o breu, a madeira, os pregos zincados, o piche o serrim, o escopeiro e tudo o que era necessário para uma boa reparação do barco.

o contacto com os camaradas (arrais do barco e ajudante) acontecia também aquando do regresso da ria para o descanso do fim de semana. repartidos pelas diversas tabernas do bico, (três nos anos cinquenta), contavam as suas histórias da semana de trabalho que não raro terminava com uma recachia entre barcos, na qual mostravam as suas habilidades de bolinadores. conversa puxava conversa e secava a garganta que era refrescada com umas receitas (vinho com pirolito, na altura engarrafado em garrafa fechada à pressão com gás cítrico por uma bola de vidro que era usada como berlinde pela pequenada).

todo este contacto com os camaradas dos moliceiros e dos berbigoeiros – os pescadores que tinham horários condicionados com a abertura e fecho do mercado de peixe em pardelhas não faziam tanto convívio nas tabernas – foi enriquecendo o seu conhecimento das artes e das gentes. se mais convívio não aconteceu ficou a dever-se à necessidade de fazer os trabalhos de casa e estudar alguma coisa, já que no início dos anos cinquenta os seus pais, na expectativa de preparar ferramentas de trabalho futuro para os filhos, apostaram na formação liceal. a frequência do colégio são joão de brito, dirigido pelo saudoso padre alberto, e o ingresso na escola do magistério primário em viseu levaram a um certo afastamento destes convívios diários.

após um breve período em que leccionou na escola da murtosa, foi incorporado no serviço militar, tendo cumprido uma comissão de serviço no niassa, como oficial miliciano, comandando tropas de guarnição normal.

regressado de moçambique reiniciou a actividade como docente. cedo deu conta que a passagem por áfrica lhe roubara a calma necessária para desempenhar a profissão, pelo que resolveu pedir exoneração da função pública e iniciar uma carreira de bancário.

é de referir que também fez parte da comissão administrativa da câmara municipal da murtosa,  nomeada após a revolução de 74 até às primeiras eleições livres em 1976.

após a aposentação fez uma incursão na vida política tendo concorrido à vereação da câmara municipal da murtosa. eleito, desempenhou funções de vice presidente por cerca de quatro anos. ainda na área autárquica assessorou, nos últimos anos do século XX, o presidente da câmara de estarreja, dr. vladimiro silva.

destas experiências políticas guarda bons e maus momentos.

para além desta participação na vida pública, a sua actividade cívica desenvolveu-se igualmente nas colectividades do concelho tendo, para além do apoio nas mais variadas ocasiões, sido director nas mais antigas. em devido tempo assumiu a presidência do marítimo, do CRM (clube de pardelhas), do ACDM e da rádio saldida fm. actualmente é presidente da assembleia geral do CRM e da rádio saldida.

na rádio saldida criou e apresentou um programa semanal com o título “roteiros culturais”, no qual se davam a conhecer os vários aspectos da cultura murtoseira, com especial destaque para o seu ex-libris, o barco moliceiro, para a casa murtoseira (casa de alpendre) e para o seu artesanato e artesãos.

no ACDM para além de director assumiu por algumas épocas a condição de treinador de andebol.

no deambular pelas quatro últimas décadas do século XX viu as grandes alterações que aconteceram na ria, principalmente na arte do moliço: primeiro a dureza do trabalho e a intransigência das autoridades fiscalizadoras e reguladoras da actividade na ria; depois a sedução das américas e por último as novas formas de adubação dos terrenos foram condenando a arte.

os camaradas fugiram para outras paragens e sem mãos de trabalho os barcos deixaram as velas em baixo, as amanhações ficaram por fazer e pelas margens ou no fundo da ria os moliceiros foram morrendo. de 1008 moliceiros registados em 1935, 164 em 1969 e uma dúzia em 1987, se não contarmos com os moliceiros e pseudo moliceiros que na cidade de aveiro transportam os turistas pelos canais, hoje contam-se apenas os que fazem as três grandes regatas da ria, murtosa-aveiro, regata da semana do emigrante no bico e regata das festas do são paio, uma dúzia de barcos.

para francisco faustino o mar e a ria foram sempre uma grande atracção. o ingresso no colégio proporcionou-lhe a inscrição no centro de vela que a mocidade portuguesa tinha na torreira. aí aprendeu a arte de velejar, tendo participado em numerosas regatas tripulando lusitos, sharpies de 9 e 12 metros, snipes e vauriens entre outros barcos de aprendizagem e de competição.

nos anos oitenta, quando os barcos começaram a ser abandonados pela falta camaradas, promoveu a recuperação de um moliceiro afundado no cabo de sobeira, propriedade de seu pai. sujeito a uma grande amanhação num estaleiro de pardilhó, foi nele que com amigos vogou nas águas da ria em fins de semana ou em tempo de férias. nele, atracado numa borda, se fizeram muitas caldeiradas à antiga. nele teve o prazer de bolinar, de sentir a sua genica, um tanto diferente da dos barcos de competição. uma picardia entre o abílio “carteirista”, na altura era o arrais oficial do barco, e outros arrais que se dedicavam ao transporte de junco para os cais, resultou num acto de vandalismo sobre o barco que viu o fundo todo perfurado com vara ou estaca afiada. na iminência de novos vandalismos ou da indisponibilidade do arrais de manter o trato do barco abandonou o gosto de ter um moliceiro. a sua manutenção ficava muito cara para quem não tinha qualquer receita. a cova do galinha, no chegado foi o seu cemitério. o prazer de desfrutar um moliceiro é igual à pena por abandonar o projecto.

se a sua relação com a ria foi forte, com o mar não o foi menos.

nos tempos ainda de estudante em que não havia ponte da varela, a rapaziada em férias reunia-se na praça de pardelhas para partir em caravana de bicicletas para a bestida a fim de apanhar a lancha das duas horas. travessia feita, pé em terra na rampa junto ao guedes, a maioria rumava ao monte branco, praia da moda e fina. salvo umas poucas excepções francisco rumava sempre ao mar, já que ir à praia sem tomar banho ou nadar no mar não era para ele ir à praia.

no mar podia apreciar a faina dos homens, cerca de quarenta nos barcos de quatro remos, dos moços que transportavam os rolos de cordas pendurados num bordão, da ida e vinda das juntas de bois, das ordens dos arrais, da saída da rede e da sua abertura promovida pelo arrais de mar, da recolha do peixe acomodado em cabazes, da separação do peixe de renda, o mais valioso, do leilão feito no areal, do transporte dos cabazes em carros de largas rodas de madeira puxados por bois até ao cimo do fato da carneira, onde os comerciantes tinham as suas viaturas, ou até à ria onde se encontravam os armazéns de salga.

toda esta lida o provocava, mas a saída do barco para largar a rede era o que mais o atraía. no tempo em que o tio joão faustino foi arrais na torreira de pouco lhe valia pedir para ir ao mar, pelo que por algumas vezes se escondia no barco para poder sair para o mar. o prazer suplantava o risco.

recorda uma vez em que o mar picado foi-se tornando cada vez mais perigoso com o avançar do barco. viu então como os pescadores o temiam. choravam e rezavam. um deles, menos afoito, virou-se para francisco e disse que se estivesse no seu lugar estaria não no barco mas ao abrigo da capela do s. paio. quando recorda esta cena vê que nesse tempo encarava o mar com leviandade. nessa altura terá começado a respeitar o mar e a temê-lo quando e quanto necessário.”

o primeiro clip de vídeo

rostos da torreira (2)


para o zé titi

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adormecem gaivotas na areia
sopra forte o norte
varrendo a praia
é inverno

atento caminha pela praia
busca um brilho
um pedaço perdido de verão

já houve mais diz-me
a crise também aqui se faz sentir

de poucas falas
sempre pronto a ajudar
é de terra este homem
aqui onde todos são de mar

veste-se de silêncio
difíceis as palavras

sentado num banco à beira ria
tem o tamanho do sorriso
a limpidez mais pura no olhar

chama-se zé titi

(torreira; 2010)

 

as pérolas-primas do primo ou as ppp’s do “Concelho da Murtosa”


( para melhor entendimento do texto primeiro ver o vídeo da apresentação do livro na torreira e depois ler a “notícia” digitalizada )

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in “Concellho da Murtosa” de 31 da agosto de 2018

…………………….

as pérolas-primas do primo ou as ppp’s do “Concelho da Murtosa”

quando me disseram estranhei, quando contei estranharam também mas, quando li, entendi.

tinha sido notícia no “Diário de Aveiro” e no “Notícias de Aveiro”, tinha de ser também no jornal da terra e pronto, havia que escrever algo, mesmo não conhecendo o livro, mesmo não tendo estado na sessão de lançamento – o artigo não é assinado, logo é da responsabilidade ou autoria do editor. havia, no entanto, o vídeo e, deduzo, foi a partir daí que a “notícia” foi escrita.

agora vamos a ela.

comecemos pela foto, é a cores e retrata uma cena da recriação da xávega em 2013, na torreira – a foto não é minha, o livro é a preto e branco e o seu conteúdo muito anterior.

“A memória de um povo faz-se pela cara das gentes” – sublinhado meu –, assim se intitula a “notícia”, deve de ter sido escrito depois de uma ida ao festival do bacalhau em ílhavo.

o título do meu livro é em minúsculas – todo o livro é em minúsculas, toda minha escrita é em minúsculas – e mal começa uma notícia quando a primeira letra é um erro, nesta porém a seguir há de tudo – erros de português, erros de impressão, falhas de revisão, citações mal feitas, corte e cola sem critério. apetece dizer que se alguém quiser aprender “como não fazer” pode começar por aqui.

alguns exemplos: “valeu apena”, em vez de “valeu a pena”, “meio bisavô” em vez de “meu bisavô”, “domingos josé cravo (gorim)” passa a “Domingos José Cravo”. se me citam usem, pelo menos, o meu modo de escrever. os textos entre aspas na “notícia”, citações do livro, não sabem o que é o respeito.

quanto aos delírios que vão surgindo, talvez por problemas de audição, organização interna ou o velho “tenho de despachar isto”, desafiam a criatividade de alguns dos melhores humoristas do nosso país. apesar de anexar a “notícia” na íntegra, não quero deixar de reproduzir alguns nacos que mais me fizeram rir e que resultam de colagens feitas pelo autor da “notícia”:

“ … as fotos de 1972, nunca saíram da Murtosa, foram todas feitas aqui, vieram da Murtosa.”

“ … fui somando memórias e fui e consegui a minha maior realização….”

“ … é o que eu deixo à Torreira, foi feito em França, fiz questão que isto ficasse bem, em França…”

enfim…. há mais mas eu gosto muito destes.

há, porém, o início de um parágrafo em que perco a vontade de rir porque, e agora cito o autor da “notícia”, se pode ler “ Um livro a três tempos, só tem piada se as fotos forem vistas com as palavras ao lado…”. poupem-me, há piada no livro? só para alguém que quer gozar comigo ou com aqueles que fotografei ou com os familiares dos retratados falecidos – mais de 40.

penso que o “Concelho da Murtosa” terá um revisor de textos. será que estava de férias? será que não quis rever este? ou será que reviu mesmo e quis deixar assim? qualquer das hipóteses não o deixa ficar bem.

peço a todos que leiam, ou releiam, o artigo que reproduzo. aos que estiveram presentes na sessão de lançamento na torreira que comparem com o que ouviram e aos que compraram o livro, e já foram muitos, que vejam se esta “notícia” tem alguma coisa a ver com o livro que compraram.

“quando o mar trabalha” – lançamento na praia da tocha


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retratado pelo amigo camilo rego

porque as palavras ditas estão no vídeo,  ficam aqui as palavras escritas – enviadas por email –  por uma amiga de lisboa a dizer do livro.

“Bom dia, António…

São quase 3 da manhã, começo agora mas não sei quando concluirei. É tanto o que despertou em mim a tua leitura, tenho dificuldade em começar.

Peguei no livro que recebi, o toque da campaínha, a minha mãe a perguntar do alto dos cento e tal degraus ” o que traz hoje ?”,  através dos anos, trouxe-me a memória da peixeira, não no areal, mas numa rua de Lisboa.

Fazes a homenagem às rugas, aos sonhos desfeitos na espuma do tempo, à esperança no amanhã, ao continuar até…, remendas as redes da vida dura, entre sal, areia, gaivotas, MUITO MAR e algum amor.

O carapau, a sardinha sofrem quando o saco é aberto, para gozo dos veraneantes, que confundem o trabalho, morte, com uma festa.

Assisti no ano passado na Costa da Caparica e tentei mostrar aos meus netos a singularidade do morrer para viver.

Estão ali os que partiram, mas permanecem em ti e os que sobrevivendo se mantêm.

Estão afinal todos, contigo nas letras e no teu olhar.

Mas… Aquelas belas fotografias a que me habituaste no Facebook, ficam apagadas pela qualidade da edição.”

 o vídeo da apresentação

a assistência retratada pelo amigo paulo delgado

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com pedro lindim, presidente da associação de moradores da praia da tocha, retratados por camilo rego

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não posso deixar de referir os momentos que mais me emocionaram durante a apresentação:

  • uma família que já tinha estado na torreira, no lançamento, e voltou à tocha para ouvir de novo o livro contado, amigos assim há poucos
  • os meus vizinhos da figueira da foz que se deslocaram à tocha
  • um amigo que ficou para o fim e me disse: quero o seu livro, está aqui o dinheiro que ganhei hoje a vender raspadinhas na praia. por favor escreva na dedicatória o seu número de telefone para o poder contactar

todos os presentes foram muito participativos e a todos agradeço o terem estado e aguentado a descarga emocional que a leitura do livro sempre produz. bem hajam

obrigado associação de moradores da praia da tocha, junta de freguesia da tocha e câmara municipal de cantanhede

obrigado tânia

para ti PAULO DELGADO já não há palavras, foram todas dentro do abraço.

quando o mar trabalha – o livro passo a passo (1)


plano 520180820_AhCravoGorim_plano5o livro está aí, caminha e diz-se, cresce e faz-se.

sexta-feira pelas 21h30m nos palheiros da tocha mais uma apresentação.

todos os dias há pedidos de quem o viu e sentiu, de quem ouviu falar dele, de quem ainda não mas …. quer

nunca pensei fazer algo de que gostasse tanto e de que tantos gostassem.

começo aqui, agora uma espécie de edição em banda desenhada virtual

o link para uma amostra no ISSUU