abraçar o vazio

o agostinho trabalhito (canhoto) e o ti augusto
estar vivo é
por vezes
abraçar o vazio
(torreira; 2013)
abraçar o vazio

o agostinho trabalhito (canhoto) e o ti augusto
estar vivo é
por vezes
abraçar o vazio
(torreira; 2013)
mesmo se longe

o salvador belo e a ciranda de um
mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira
os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados
que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto
falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho
mesmo se longe

é duro, é muito duro
(torreira; cirandar)

Ilustradora e designer gráfica. Licenciou-se em Design de Comunicação na Universidade de Aveiro e fez o mestrado em Ilustração na Konstfack University College of Arts, Crafts and Design, em Estocolmo. Trabalha para editoras portuguesas e suecas.
Em 2010, as ilustrações do livro Poesia de Camões para todos receberam um destaque do júri do Prémio Nacional de Ilustração. O seu trabalho para o livro O Carnaval dos animais foi também selecionado pelo júri do prémio TITAN Illustration in Design.
um cravo para ti

mais do que a palavra
somos o gesto
mais do que o pensar
somos o fazer
mais do que únicos
somos solidários
não somos diferentes
somos assim
temos a liberdade de o ser
por isso lutámos
temos a liberdade de te dizer
é teu o que conquistámos
mesmo que o não sintas
porque não viveste o antes
mais do que a mão que fere
somos a mão que dá
nessa mão um cravo
um cravo para ti
hoje que é 25 de abril
e tu sem o sentires
és a razão de termos feito
de continuarmos a ser
mais do que a palavra
o gesto
dentro dele o teu cravo

(coimbra; 25 de abril de 2017)

a 21 de abril de 2017, na assembleia figueirense, decorreu o lançamento da última obra de antónio tavares.

maria do rosário pedreira e cesário borga, abordaram a obra sob perspectivas diversas: as suas, as da sua profissão.
afinal estávamos perante uma obra literária que tinha como personagem principal um jornalista.
antónio tavares
“Se há tanta gente a escrever e tão bem, porque é que me hei-de meter nisto?”
António Tavares nasceu em 1960 em Angola, mudando-se para Portugal em 1975, no processo de descolonização.
Viveu em várias cidades portuguesas. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. É professor do ensino secundário, actividade que suspendeu para exercer actualmente o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Foi jornalista, fundador e director do jornal regional A Linha do Oeste. Fundou e coordenou a revista Litorais.
Escreveu peças para teatro – “Trilogia da Arte de Matar”, “Gémeos 6” e “O Menino Rei” –, estudos e ensaios – Luís Cajão, o Homem e o Escritor; Manuel Fernandes Thomás e a Liberdade de Imprensa; Arquétipos e Mitos da Psicologia Social Figueirense e Redondo Júnior e o Teatro. Com o segundo romance, O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde, obteve uma menção honrosa no prémio Alves Redol, atribuída em 2013 pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Ainda não o publicou. “Não queria que este fosse o segundo romance meu a sair”, disse. Com a publicação prevista de O Coro dos Defuntos pela Leya, o autor já vê com bons olhos a sua chegada às livrarias.
António Tavares já tinha sido finalista do Prémio Leya 2013, com o romance As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, editado pela Teorema. Foi o primeiro que escreveu, em 2012, já com 52 anos de idade. “Sempre pensei que se há tanta gente a escrever e tão bem, porque é que me hei-de meter nisto? Pensava que não era capaz. Tinha feito jornalismo e peças de teatro, mas nunca me tinha aventurado pelo romance porque achava que não tinha fôlego para o fazer”, disse. Tirou duas semanas de férias, fechou-se e ficou surpreendido com o resultado: “Saiu-me tudo cá para fora, como um jacto, estava tudo muito à flor da pele. E o imenso gozo que me deu!”.
“Um escritor não deve só escrever”
Foi o presidente do júri, Manuel Alegre, que lhe ligou durante a manhã para anunciar a novidade. “Tinha uma esperançazinha vaga [de ganhar], que ao mesmo tempo ia tentado dissipar, mas tinha”, admitiu. Para além de Manuel Alegre, do júri fizeram parte Nuno Júdice, Pepetela, José Castello, e ainda José Carlos Seabra Pereira, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, Reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, Professora da Universidade de São Paulo.
O vencedor leva para casa 100 mil euros, valor máximo de um prémio literário para romances em língua portuguesa. Para o premiado é essencialmente um incentivo a continuar, uma recompensa. “Mas também é um prémio que me dá alguma responsabilidade, vou ter de me dedicar mais tempo”, disse. Não pensa, contudo, em dedicar-se a 100% à escrita. “Não encaro de maneira nenhuma a possibilidade de só escrever. Concordo com o que diz o Mia Couto, que o escritor não deve escrever só, deve ter o resto da sua vida”.
TODOS OS DIAS MORREM DEUSES
Um jornalista reescreve diariamente a história do mundo nos anos 1950/60.
1953. Este é um ano rico em acontecimentos: Eisenhower é eleito Presidente dos EUA, Churchill ganha o Prémio Nobel da Literatura, os Rosenberg são acusados de espionagem e executados, Tito torna-se o timoneiro da Jugoslávia… E, porém, os factos que atraem o protagonista deste romance – um jovem jornalista sem dinheiro que deambula por uma Lisboa de cafés e águas-furtadas – são claramente delicados em tempo de censura, pois prendem-se com as múltiplas conspirações que rodeiam a morte e a sucessão de Estaline na União Soviética. Não só é preciso que escreva com pinças para fintar o regime, como a informação que lhe chega de fora é escassa e contraditória, obrigando-o a dar largas à sua imaginação…
Muitos anos depois, de regresso à aldeia onde nasceu e a que o liga a memória da mãe, sente o rasto da velhice na metáfora de uma fogueira que vai consumindo o que ainda lhe sobra desse passado e relembra as mulheres que o marcaram e os deuses que ajudou a criar na sua prosa diária.
http://www.leyaonline.com/pt/livros/literatura/literatura-classica/todos-os-dias-morrem-deuses/
do lançamento aqui fica o registo possível
(com “Todos os Dias Morrem Deuses”, o romance ” O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde” é finalmente publicado. pelo que , cronologicamente este é o seu segundo romance, mas em termos de edição será o terceiro.
porque os dois apresentadores do livro não tocaram em dois pontos que muito me atraíram no livro, aqui ficam duas dicas para os leitores:
– a presença de fernando pessoa
– a janela e o que dela se vê, não vê, ou se pode imaginar
antónio ficcionou outro antónio, que ficcionou a realidade. é assim que os deuses morrem e nascem)
será?

em boa terra
até a má semente
germina

(regata da ria; 2010)
desencontro

a escolha
a mão que deste
a mão que te deram
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
a memória das imagens

o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta
são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque
une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada
fiquem para outros os palcos
homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor
vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada
a memória das imagens

quando três são um
(torreira; regata da ria; 2010)
vive

quando o longe se faz perto
e estás onde estiveste
quando o tempo se apaga
e és o que já foste
então a imagem é tua
mesmo se por outros olhos
vê e sente
ouve e sê
tudo está aqui
para ti
vive
(torreira)