o que sei
para os poetas sou fotógrafo para os fotógrafos sou poeta para os amigos sou o cravo essa é a única verdade
por que não quero escrever
nada mais resta que uma varanda sobre o tempo uma corda tensa a prender os dias nada mais que uma visão coberta de silêncios e vozes idas nada mais que palavras inventadas onde já não as há caminhos feitos muitos por fazer uma corda esticada sobre os dias procura uma guitarra que certo é o fado
mais que o nome a alcunha conta uma história assim os pescadores a do henrique nunca a soube nem é aqui lugar para homem rico o henrique de duas alcunhas penso ser dono haverás mais ricos de alcunhas claro mas de voz mais nenhum safa as redes como todos não safa a vida
torreira; porto de abrigo; 2013
em 2010 o dia 28 de agosto foi assim:
” um dia em cheio. 7h45m- torreira; 8h30m – partida para a ria com dois pescadores para, durante cerca de 1h30m, fotografar e filmar o colher das redes; 10h30m banho no mar; 14h30m – o marco resolve ir ao mar, até às 17h fotografar e filmar um lance de xávega. assim um dia”
um dia intenso, como eram todos os dias
porque de tudo haverá partida e se fará memória se a houver malhas cheias as da minha rede forçoso voltar a terra e descarregar tempo de contas e de ter sido farto e intenso nunca pela metade porque de tudo há partida resta a memória

(de partida para cabritar berbigão, ou ameijoa)
eternidade breve
o assassínio do futuro condena-me a conjugar os verbos no passado se os nomeio folhas secas juncam o chão dos dias inscrevem nomes na memória povoam o silêncio estar vivo é saber da morte dos outros ser a sua eternidade breve outra não há
torreira; regata bateiras à vela; são paio; 2013
caminho andado
caminho descalço pelos dias de estar aqui olhos abertos como mãos em tempo de fruta madura caminho descalço dorido de tantos cacos pedras vidros pregos recuso o conforto da cegueira auto imposta felicidade falsa de luas inventadas doem-me os olhos de ser
