os moliceiros têm vela (373)

os moliceiros têm vela (373)


nocturno para o rui mourato
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torreira; sem data; era lua cheia

agora que te calaste
para sempre
quero-te dizer
que falavas muito
o ti cravo dito por ti
era um abraço
de uma ave pernilonga
vinda do sul fascinada
pelos moliceiros
habitava-te
um coração enorme
o que parou
agora que te calaste
para sempre
calo-me também
para te ouvir
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torreira; sem data; era lua cheia

os moliceiros têm vela (372)


para o ti zé rebeço
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cais do bico; regata do emigrante; 2019

a ria em fundo
a ria no sangue
a ria cama mesa
a ria outra casa
a ria tudo quase
 
como se dissesse
que se há-de fazer
tantos anos depois
 
o homem confunde-se
com o barco
ele é o barco na ria
a vela o mastro a toste
enterra a toste manel
 
a frema tão murtoseira
 
o saber que não
se pode saber tudo
rás parta o tempo
que se há-de fazer
os moliceiros têm vela (369)

os moliceiros têm vela (369)


sonho ainda
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murtosa; regata do bico; 2017)

 
não nego a solidão
nem a cultivo
 
estou comigo e sou
ergo-me em mim
corto a direito
 
o meu tempo é duro
se amargos alguns dias
inteiros todos são
 
recuso não ser eu
custou muito
fazer-me
 
sonho ainda
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murtosa; regata do bico; 2017

 
os moliceiros têm vela (368)

os moliceiros têm vela (368)


uma imagem vale mais que mil palavras ?
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aveiro; ti zé rebeço e abílio carteirista; julho; 2019

 
(porque gosto muito deste registo, não o queria perder, nem que fosse mal interpretado, por isso sobre ele umas palavras breves)
 
uma imagem é só isso, livre de a interpretar fica quem a lê; palavras fossem e o mesmo poderia escrever.
 
neste caso, a leitura mais imediata das expressões será a da existência de uma controvérsia acesa entre os intervenientes. nada mais errado.
 
o que a imagem retrata – porque não encenada – são as posturas mais usuais de cada um dos intervenientes: o indicador da mão direita esticado (típico no ti abílio) e as mãos abertas (tão comum no ti zé rebeço).
 
a conversa foi acesa, sim, mas a três – o homem da máquina, eu, também entrou nela – e o acordo foi constante, falámos de moliceiros e das regatas.
 
a expressão gestual das opiniões ficou registada na imagem, não o seu sentido. por isso estas palavras que, não sendo mil, resgatam, de qualquer interpretação quase óbvia e errónea, o que de facto se passava: tão só conversa de amigos.
 
os moliceiros têm vela (367)

os moliceiros têm vela (367)


da regata da ria 2019
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regata da ria; fazer bordos; 2019

 
da beleza da dança
todos enchemos os olhos
 
poucos conhecem
da bailarina o sacrifício
 
dançassem os mandantes
estariam cheias as cadeiras
vazio o palco
 
falo dos moliceiros
da regata da ria
dos camaradas
do sangue da dor
do esforço
falo dos homens
 
falo dos senhores sentados
à mesa do calendário
e dos banquetes
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regata da ria; fazer bordos; 2019

 
os moliceiros têm vela (365)

os moliceiros têm vela (365)


josé rendeiro (rebeço) e abílio fonseca (carteirista)
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à esquerda ti zé e à direita o ti abílio ( aveiro; regata da ria; 2019)

 
os dois a rondar os 80 anos, o ti abílio com mais alguns e o ti zé quase por lá, são os resistentes de um tempo que hoje se revê nos moliceiros.
 
sem homens não há barcos, e estes homens estão quase a passar o testemunho, a idade é mais forte que a teimosia e o amor que os liga à ria e aos moliceiros.
 
há muitos anos que tenho por eles admiração, respeito e amizade.
 
queria deixar aqui o meu abraço a ambos e o desejo de que quem direito lhes reconheça o valor e o amor que sempre dedicaram ao emblema da terra: o moliceiro.
 
bem haja ti abílio, bem haja ti zé. se a ria tivesse ruas ou praças, certamente que duas teriam o vosso nome.