crónicas da xávega (144)


tarda o sol

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na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem

há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem

apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos

o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe

tarda o sol

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

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regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente

crónicas da xávega (143)


crescer com a xávega

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não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem

trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram

o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos

não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

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(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (145)


joão manuel brandão (3)

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sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto

saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna

é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens

este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

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(torreira; cabrita alta; 2012)

crónicas da xávega (141)


resistir

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o ti américo na manga do reçoeiro, no alador

a manga no alador
corre
o fim do lanço quase

os anos pesam
mais a rede
mais a necessidade

a língua espreita
o esforço
as ganas de continuar

um homem não é
uma máquina
resiste resiste resiste

está vivo muito

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conhaque é conhaque, serviço é serviço

(torreira; companha do marco; 2015)