
como se numa dança
por entre as mãos
se faz o caminho da rede
(torreira; 2016)
redes
postais da ria (206)
para o meu amigo fernando nuno

por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?
quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?
pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste
no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?
as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar
na ria não se faz vida
pois não zé?

(torreira; 2009)
crónicas da xávega (181)
recuso ser de férias

o carregar da rede na zorra
é tempo de olhar
de sentir tudo
o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso
fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado
recuso ser de férias
sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos
fica a memória a pairar na praia
longe

veio do mar, irá agora ser entendido e secar
(torreira; companha do marco; 2016)
postais da ria (162)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
postais da ria (157)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)
postais da ria (130)
o meu amigo carlos padeiro

começa-se cedo aqui
aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo
aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol
os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde
não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos
escuto o silêncio

férias da escola é na ria
(torrreira; porto de abrigo; 2010)
crónicas da xávega (121)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)
o meu amigo rui
ao pescador da torreira

reparar as redes da solheira
far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início
seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores
és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo
não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

as horas que fazem o dia são poucas
(torreira, porto de abrigo dos pescadores)