
joão manuel brandão
a arte da cabrita alta

(torreira; 2012)

joão manuel brandão
a arte da cabrita alta

(torreira; 2012)
a vida antes da morte

não me preocupa o que acontece depois de morrermos, preocupa-me sim o como morremos.
no momento em que em portugal se vai discutir a legalização da eutanásia, tudo o que com ela se relacione, nos países onde já é legal, é notícia. infelizmente nem tudo, só aquilo que interessa a quem dominando os meios de comunicação se opõe à sua legalização.
não haverá muitos dias, numa estação de rádio, foi transmitida uma entrevista com uma enfermeira portuguesa a trabalhar na bélgica, que tinha participado numa morte assistida.
a moça estava chocada, disse que se recusava a participar em qualquer outro acto semelhante. relatou que a pessoa em causa, uma mulher, estava lúcida, era saudável, mas “sentia-se só e queria morrer”.
nem a filha a demoveu, e no momento do desenlace despediram-se uma da outra com um
“amo-te”
ora tudo isto aconteceu num “lar de idosos” onde a enfermeira trabalhava, disse.
nunca a ouvi questionar o funcionamento do lar. porque é que num lar uma pessoa se pode sentir só?
se é assim na bélgica, como será em portugal?
assustam-me os lares de idosos, como me assusta o sofrimento que só adia a morte.
preocupa-me que uma pessoa saudável, se sinta só num lar e peça para morrer.
preocupa-me esta sociedade egoísta e cínica que não vê que a maioria dos “lares de idosos” são a prática “piedosa” da eutanásia.
preocupa-me

(torreira; regata do s. paio; 2012)
boas manel

éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos
quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo
só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar
direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado
começo a ter muitas respostas
de silêncio
mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas
quarenta e cinco anos manel
é muito tempo
mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é
abraço manel
é bom estar contigo

(ria de aveiro; cais do bico)
a escolha

estar vivo será perigoso
calmo sossegado
é não estar
a escolha não é tua

(torreira; regata do s. paio; 2013)
o instante

o regresso
hoje é ser eu aqui
o momento é agora
o tempo todo
é coisa nenhuma
respiro o instante

(ria de aveiro; torreira)
aos senhores da terra

toda a beleza dos moliceiros
queria acreditar em vós
em tudo o dizeis
ouço-vos atento
mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa
(torreira; regata da ria; 2010)
vida

nada é tudo
tudo é nada
muito é pouco
pouco é muito
vida

(torreira)
ser quase nada

a ria por destino
ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais
escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão
tantos
julgam ser
quase tudo

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira
(torreira; marina dos pescadores)
penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
cabrita alta

joão manuel dias
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?
os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas
tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados
o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
quero que os sintas
ao leres

no fundo da ria e cabrita arrasta
(torreira; cabrita alta; 2012)