sorrio de mim

safar as redes da solheira
sou a memória
de ter sido
habito-me emalhado
na rede dos dias
reinvento-me
em tudo o que faço
sorrio de mim
(torreira; porto de abrigo; 2013)
sorrio de mim

safar as redes da solheira
sou a memória
de ter sido
habito-me emalhado
na rede dos dias
reinvento-me
em tudo o que faço
sorrio de mim
(torreira; porto de abrigo; 2013)
da escrita

o safar das redes da solheira
só escrevendo
me liberto
do que sinto
safar de outras
redes
da arte de viver
hoje não escrevi
(torreira; 2018)
olhares cegos

será negra a noite
mas nela encontrarás luz
suficiente
entre noite e noite
muitas cores povoarão
o dia e o teu registo
mas
a cor do dinheiro
ficou esquecida
nos teus postais
olha como quem vê
não como quem ignora
(torreira; safar redes; 2016)
lembrando joaquim namorado
quando

com joão costeira
quando te contarem
cala
mesmo sabendo que
falso
não perturbes o lento
desmoronar da casa
(torreira; o largar da solheira; 2010)
é tarde
enevoado tempo
o das memórias
acordo e recordo
não consigo
esquecer
o que me lembra
ao adormecer
sofro de memórias
de violentados dias
fracas palavras
pobres gestos
vem vazia a rede
vem vazia
vem
é tarde

alar com salvador rilho (chalana)
(torreira; alar da solheira; 2010)
impossível
impossível safar a vida
como quem redes safa
as mágoas que nas malhas
dos dias presas ficaram
não há mãos que as tirem
gestos que as sacudam
arredem para longe
límpidos ficassem os dias
de o terem sido sempre
estar vivo por vezes dói
safassem-se e outro seria
o que nestas palavras
preso ficará sem remédio
impossível safar a vida
como quem redes safa

(torreira; safar redes; 2013 )
do saber ser

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
meticulosas mãos
sábias precisas
limpam redes reparam-nas
novas fazem se
haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito
aprende com elas
o ser e o ter sido
há avarias irreparáveis
redes perdidas
meticulosas as mãos
sabem-no

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
(torreira; entralhar; 2013)
a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)
órfãos vão os dias
estou onde
os olhos me levam
semeio letras
enleadas nas redes
de outras mãos
tudo é memória
invento
o haver amanhã
órfãos vão os dias

(ribeira de pardelhas; 2009)
existe
existe o tempo
e o lugar onde
habita o infinito
aí os olhos
se fecham
para sentir
uma mulher safa
redes por sobre
o silêncio da ria
existe o tempo
e eu porque aqui

(safar redes; torreira; 2017)