eu

existe o sonho
e a realidade
entre ambos
numa linha
apenas numa linha
quase invisível
quase nada
existo eu
existo eu
existo eu
eu

(torreira; regata da ria; 2010)
eu

existe o sonho
e a realidade
entre ambos
numa linha
apenas numa linha
quase invisível
quase nada
existo eu
existo eu
existo eu
eu

(torreira; regata da ria; 2010)
o poeta é

seres tu o poema
poesia os teus dias
o poeta é
o mais são palavras
em busca da luz

(torreira; 2017)
juntos

partiram alguns
ficaram poucos
cresceram todos
eu lembro-me de ter sido
mais um
que se lembrem eles de
de mim
agora que lhes devolvo
o termos sido
para sermos de novo
os putos da ria
e o ti cravo
juntos

(torreira; 2012)
carta ao meu amigo miguel bitaolra

o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina
lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós
o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira
apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto
apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será
apeteceu-me agora
e agora foi mais forte
abraço ti miguel

(torreira; 2009)
milagres

torreira
todo o inexplicável
ir-se-á explicando
entretanto
florescem milagres
nos jardins dos incréus
pergunto

ontem fui
hoje sou
amanhã não sei
se serei
e tu será que
hoje és
ou já foste?
(torreira; 2017)
caminhos de areia

seco o saco a companha leva à zorra
serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido
acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra
serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra
então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem
a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

ardem na areia os pés
(torreira; 2013)
sou vela

a bordo do moliceiro do ti abílio
abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que
ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos
ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos
vim de longe
não sei para onde vou
nem quando
mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela
mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias
sou vela

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”
(torreira; regata do s. paio; 2016)
torreira, o massa canta na ti rosa de avanca, um vídeo muito difícil de fazer.
o artista tem preço muito alto para as posses de quem tem uma câmara na mão
emília russa e olívia borras, mulheres da torreira, peixeiras desde há muito – são estes os seus pregões.
haja peixe, que mulheres a torreira tem