nada é

não há máximas
que me tirem daqui
era o mínimo
que o ouviam dizer
calou-o a realidade
ignorada
o homem o trouxe
e o levou
o tempo calará
o mais

(torreira; 2016)
nada é

não há máximas
que me tirem daqui
era o mínimo
que o ouviam dizer
calou-o a realidade
ignorada
o homem o trouxe
e o levou
o tempo calará
o mais

(torreira; 2016)
(meditação com moliceiros em fundo)

filho da mãe
durante muito tempo me interroguei do porquê de a expressão “filho da mãe”, ter um sentido depreciativo.
para mim, ser filho da mãe era tão natural como estar vivo, não há outra forma de ser.
mas o povo, o que nos põe na boca as expressões que usamos, sabe das palavras mais que as letras, vai-lhes ao sentir. era isso que me faltava: sentir.
hoje entendo perfeitamente o significado da expressão e a sua conotação depreciativa, entendo porque senti e sentir é a melhor forma de compreender.
espero que nunca sintam o sentido desta frase e que a digam de forma natural, como o fazem com outra qualquer:
FILHO DA MÃE!

(torreira; regata da ria; 2011)
as quotas

a ti maria safa as redes da solheira
na ria não se discute
a participação das mulheres
nem há tempo para isso

(#torreira; 2016)
do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)
falo do moliceiro

um barco
não tem raízes
é raiz
navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros
o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

(torreira; regata do s. paio; 2016)
fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia
o presente

guardaram-lhe para o fim
o presente mais apreciado
esqueceram-se de lhe dizer
que era envenenado

(torreira; 2013)
fui-me

cirandar
anoiteci-me aqui
é tarde meu amigo
é tarde
fui-me

cirandar
(torreira; 2016)

eis as mãos
eis a faina o labor
de haver mar

(torreira; 2016)
o fotógrafo e o moliceiro

há momentos que dificilmente se repetirão, este é um deles.
éramos 3 dentro do moliceiro, dentro da regata, no meio da ria – eu, o carlos lopes franco e o ti abílio.
o ti abílio tripulava o barco, eu e o carlos, tentávamos captar as imagens possíveis.
foi de loucos. a acção ultrapassava tudo, até um hipotético enjoo do carlos (olha que eu enjoo – tinha-me dito).
não houve tempo para mais nada senão viver o instante.
junto do traste, depois de ter feito o filme possível, que ainda espera edição, fotografava como sabia e o que podia.
neste registo o carlos fotografa o ti abílio – esquecido de tudo o resto -, o ti abílio governa o moliceiro – não pensa em mais nada – e eu fixo o momento.

(torreira; regata do s. paio; 2016)
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira