as quotas

a ti maria safa as redes da solheira
na ria não se discute
a participação das mulheres
nem há tempo para isso

(#torreira; 2016)
as quotas

a ti maria safa as redes da solheira
na ria não se discute
a participação das mulheres
nem há tempo para isso

(#torreira; 2016)
do medo

por entre os dedos
a corda dos dias
correu
agarrei o que pude
como soube
aprendi
tudo é nada
rente ao mar
o que foi continuará
a engrenagem
funciona
gorduroso o medo

(torreira; 2016)
falo do moliceiro

um barco
não tem raízes
é raiz
navega memórias
redesenha silêncios
inventa futuros
o homem criou o barco
e nele se enraizou
para fazer a viagem

(torreira; regata do s. paio; 2016)
fotografar moliceiros de dentro de um moliceiro é viver mais a fotografia
o presente

guardaram-lhe para o fim
o presente mais apreciado
esqueceram-se de lhe dizer
que era envenenado

(torreira; 2013)
fui-me

cirandar
anoiteci-me aqui
é tarde meu amigo
é tarde
fui-me

cirandar
(torreira; 2016)

eis as mãos
eis a faina o labor
de haver mar

(torreira; 2016)
o fotógrafo e o moliceiro

há momentos que dificilmente se repetirão, este é um deles.
éramos 3 dentro do moliceiro, dentro da regata, no meio da ria – eu, o carlos lopes franco e o ti abílio.
o ti abílio tripulava o barco, eu e o carlos, tentávamos captar as imagens possíveis.
foi de loucos. a acção ultrapassava tudo, até um hipotético enjoo do carlos (olha que eu enjoo – tinha-me dito).
não houve tempo para mais nada senão viver o instante.
junto do traste, depois de ter feito o filme possível, que ainda espera edição, fotografava como sabia e o que podia.
neste registo o carlos fotografa o ti abílio – esquecido de tudo o resto -, o ti abílio governa o moliceiro – não pensa em mais nada – e eu fixo o momento.

(torreira; regata do s. paio; 2016)
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
bem hajas antónio brandão

nuno cunha e o mestre zé rito fixam a bica do moliceiro
há datas que não são para esquecer, esta é uma delas.
o nuno cunha (setenove) e o mestre zé rito, fixavam a bica da proa do moliceiro. a construção progredia.
eram muitos, como hábito, os que assistiam àquilo a que chamei “celebração da ria”, entre eles alguns dos irmãos “brandão”.
o antónio brandão veio, de repente, ter comigo e disse-me:
– sr. cravo, tenho lá em casa uma caixa que a drª andreia me deu, com desenhos de moliceiros, e que lhe deve interessar.
pegou na bicicleta e, pouco tempo depois, trazia na mão uma caixa branca, de arquivo, que me deu para as mãos.
abri e vi que era a tese de licenciatura, de 1999, da minha amiga andreia leite, falecida aos falecida em 2008, aos 31 anos, de leucemia, e que muito me ajudou nas pesquisas sobre o naufrágio do nathalie. o documento tinha dado origem à tese de mestrado que viria a defender na universidade portucalense.
fiquei sem palavras e só fui capaz de dizer ao antónio:
– guarda-o é uma oferta que deve permanecer na família.
– sr. cravo, dou-lho como se o desse ao meu pai.
os olhos falaram pelos dois, não fui capaz de dizer que não e limitei-me às palavras mais simples:
– nunca me hei-de esquecer deste dia, antónio.
– e eu nunca me hei-de esquecer de si, sr. cravo.
escrevo o que se passou e volto a sentir tudo……..
a memória aqui fica e o testemunho de uma amizade que junta várias.
a construção do moliceiro proporcionou-me um dos momentos mais sentidos em toda a minha passagem pela torreira.
bem hajas antónio brandão
(torreira; 2 de agosto de 2016)
recuso ser de férias

o carregar da rede na zorra
é tempo de olhar
de sentir tudo
o regresso cada dia mais
improvável
é também ele nebuloso
fui
no tempo que passou
espectador atento e preocupado
recuso ser de férias
sou
a impossibilidade de ser mais
sendo menos
fica a memória a pairar na praia
longe

veio do mar, irá agora ser entendido e secar
(torreira; companha do marco; 2016)