construção de um moliceiro


3 de agosto

depois de fixada a bica da proa, continua-se o “folheamento” dos costados do moliceiro.

neste registo o ti zé rebeço, de passagem pelo estaleiro, ajuda a dobrar uma tábua afeiçoando-a ao costado, enquanto o mestre zé rito aperta a madeira com os “grampos”.

em breve o barco estará fechado.

uma coisa é verdade e constante na torreira: a construção de um moliceiro é ponto de encontro de todos, não falando das visitas.

o mestre não tem aprendizes: tem amigos

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2 de agosto

depois de colocadas as cavernas e os braços e com uma cinta de costado. faltava a colocação da bica da proa para que o moliceiro tivesse a sua forma final.

o mestre zé rito, ajudado pelo amigo nuno cunha (setenove) fixa a bica da proa.

a beleza do moliceiro enriquece-se a cada dia

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30 de julho

o molde

os mestres contrutores navais passavam aos aprendizes o seu saber não só pelo ensinamento das boas práticas, mas também pelos modelos de que serviam para a construção dos barcos.

os paus de pontos e os moldes, são dois exemplos.

neste registo o mestre zé rito, usa o molde das cavernas e braços – que lhe foi oferecido pelo mestre joaquim raimundo e posteriormente adaptado a seu gosto – para recortar mais um braço de um pedaço de pinheiro manso

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30 de julho

continuação da feitura e montagem dos braços. neste registo o “afeiçoar” de um braço

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29 de julho

o mestre zé rito a fazer “braços” e vê-se já o barco com tábuas de costado

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26 de julho

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18 de julho

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postais da ria (181)


nunca mais

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rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão

à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos

o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia

do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria

olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória

sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem

não há futuro aqui
nunca mais

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a névoa cobre tudo, até o futuro

(torreira)

plantar uma árvore na ria


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já com sombra, o mestre zé rito e o zé rebelo (dono do barco) trabalham

à terra arrancada
seca cortada afeiçoada

da árvore a memória
reconstruída pelo homem

a reinvenção do barco

à sombra por fim oferta
o homem cresce
vergado ao peso da obra

amanhã vamos plantar
uma árvore na ria

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o zé rebelo aplica gordura para preservar a madeira

(torreira; 26 julho, 2016)

olhei e não vi


olhei e não vi

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olhei e não vi o barco
vi o esqueleto
a madeira

olhei e não vi o estaleiro
vi a areia o sol em brasa
o mestre as ferramentas
o suor no rosto

olhei e não vi nada
não posso ver

olhei só
e lembrei-me de ter visto
o mestre há alguns anos
no estaleiro à beira porta
a fazer o mesmo
construir um moliceiro
mas à sombra de uma rede
a dele

quanto mais olho
menos quero ver

asneira sobre asneira
se constroem os dias
se destrói o sonho
se enterra a memória

não escrevo para que gostem
registo para que se interroguem
passo e não vejo mas olho
e não resisto

até estar de férias aqui
começa a ser complicado
ser cego dói ver dói mais

todo o absurdo aqui é real

(torreira; 18 de julho de 2016)

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o mestre zé rito constrói mais um moliceiro, agora para o zé rebelo. ao lado ” ….O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa,….”

postais da ria (179)


por vezes leio jornais

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cabrita de pé

sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos

sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns

sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias

sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto

sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são

eles também
e há quem saiba muito mais

eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

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muito dura a arte da cabrita

(torreira; cabrita de pé)