mãos (13)


eu queria escrever
poemas de amor

escrever com arte
o teu corpo o meu
os nossos

escrever coisas belas
que nada dissessem
para além da beleza
que há nelas

eu queria escrever
poemas de amor

poetar
a natureza o céu
as flores o mar
e os teus olhos

num poema
pensar o mundo
sem o mundo dizer

eu queria ser poeta
mas sou apenas um ser
que olha vê sente

e não cala a raiva a lágrima
que ensopam
estes dias-palavras tristes

(solheira; safar redes; torreira; 2014)

postais da ria (546)


mar becker

com as mãos
esgaravata o chão
labuta diária

pedras preciosas
simples seixos
torrões de terra

garimpa e semeia
ciranda e lavoura
trabalha muito

dia após dia
no aparente deserto
renasce mar

a poesia acontece
no silêncio da casa
e ilumina os dias

(solheira; safar redes; torreira; 2011)

postais da ria (545)


que metáfora
para o sniper que alveja
uma criança indefesa
uma mulher que leva o filho pela mão
um homem que caminha

que metáfora
para o tiro certeiro
no peito na cabeça
para o assassínio preciso
sorridente impune de safari

que figura de estilo
para a terraplanagem 
o apagar da memória
o que tanto foi

que metáfora
para o genocídio impune
realimentado em dólares
e silêncio acomodado

que figura de estilo
falta ainda inventar 
porque tudo surpreende
quando pensávamos
já ter visto tudo

que metáfora
para esta merda de tempo
em que vivemos

(bateiras; torreira; 2013)

crónicas da xávega (589) – bota! 2025


mais um ou menos um

esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação

sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas

a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra

são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam

faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais

por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir

não esqueças
a desumanidade não pára

(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)

os moliceiros têm vela (560)


não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho

em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o

carteirista era a sua alcunha
ti abílio

nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça

um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio

a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir

(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)