bateiras
quem safa as redes, safa a vida ?
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
quem safa redes, safa a vida?

depois de largar e alar
safar peixe se algum
há que limpar, safar e arrumar
as redes
quantas horas?
quanto de ganho?
(torreira; 2017)
postais da ria (212)
poderia

ciranda de dois ( ou será de casal?)
poderia escrever
os nomes dos barcos
dos homens das mulheres
dos ganhos das perdas
das artes das artimanhas
da compra da venda
dos contratos doutros tratos
poderia
mas deixo para ti
esse caminho doloroso
que já percorri
também tu
deves aprender
como se vive por aqui
(torreira; cirandar; 2016)
postais da ria (211)
mesmo se longe

o salvador belo e a ciranda de um
mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira
os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados
que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto
falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho
mesmo se longe

é duro, é muito duro
(torreira; cirandar)
postais da ria (210)
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
postais da ria (209)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
postais da ria (208)
o grito por dentro

como se nada
ninguém
o olhar embebeda-se
de tanto
homem e mulher
camaradas
homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria
homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto
o silêncio
é um barco sem gente
oiço o grito
mais ninguém?

(torreira; o alar da solheira)
postais da ria (207)
porquê

faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol
há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços
o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste
faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra
porquê

(torreira; s. paio; 2014)
postais da ria (206)
para o meu amigo fernando nuno

por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?
quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?
pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste
no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?
as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar
na ria não se faz vida
pois não zé?

(torreira; 2009)