postais da ria (211)


mesmo se longe

0 ahcravo_ DSC_1341 bw

o salvador belo e a ciranda de um

mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira

os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados

que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto

falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho

mesmo se longe

0 ahcravo_DSC_1341

é duro, é muito duro

(torreira; cirandar)

postais da ria (210)


da ignorância e da sabedoria

0 ahcravo_ DSC_0457 bw

o carlos arato safa as redes da solheira

há os que não sabem
e não sabem que não sabem

e os que não sabem
porque não querem saber

respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos

indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil

olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive

essa é a minha sabedoria

0 ahcravo_DSC_0457

o carlos arato safa as redes da solheira

(torreira; 2016)

postais da ria (209)


o real no virtual

0 ahcravo_DSC_3334

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal

que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida

a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais

num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras

(torreira; 2016)

postais da ria (208)


o grito por dentro

0 ahcravo_ DSC_1560
como se nada
ninguém

o olhar embebeda-se
de tanto

homem e mulher
camaradas

homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria

homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto

o silêncio
é um barco sem gente

oiço o grito
mais ninguém?

0 ahcravo_ DSC_1560 bw

(torreira; o alar da solheira)

postais da ria (207)


porquê

0 ahcravo_DSC_5617 bw

faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol

há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços

o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste

faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra

porquê

0 ahcravo_DSC_5617

(torreira; s. paio; 2014)

postais da ria (206)


para o meu amigo fernando nuno

0 ahcravo_ DSC_5553 zé de gaia bw

por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?

quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?

pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste

no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?

as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar

na ria não se faz vida
pois não zé?

0 ahcravo_DSC_5553 zé de gaia c

(torreira; 2009)

solheira: alar e safar


0 ahcravo_ DSC_0523

a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal

actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:

“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada

características:

– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)

o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.

na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.

cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.

para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:

– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal

a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.

ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.

anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.

ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”

durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.

os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.

as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.

o esforço da alagem é notório nos registos.

em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.

por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.

não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar

(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

(torreira; 2010)