a ria radical
património imaterial
até nem estava mal
ilusão por ilusão
ficava tudo igual
(kite surf; bunheiro; murtosa; 2013)
espírito criativo
nunca tive
não sei o que é
por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos
fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo
no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo
meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois
atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
em louvor dos críticos
contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte
cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião
cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia
aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor
foi o fim dos conselhos
se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema
eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso
ah aposentado que ainda estavas
ao serviço
(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)
que metáfora para o sniper que alveja uma criança indefesa uma mulher que leva o filho pela mão um homem que caminha que metáfora para o tiro certeiro no peito na cabeça para o assassínio preciso sorridente impune de safari que figura de estilo para a terraplanagem o apagar da memória o que tanto foi que metáfora para o genocídio impune realimentado em dólares e silêncio acomodado que figura de estilo falta ainda inventar porque tudo surpreende quando pensávamos já ter visto tudo que metáfora para esta merda de tempo em que vivemos
(bateiras; torreira; 2013)
“não há livros de poesia, há poemas”
elisa scarpa
não gosto de epígrafes
sequer da palavra
até pensei em escrever
um livro de páginas
em branco encimadas
pelas ditas
pensei mas também
pensei no papel
que iria estragar
e não o fiz
já disse e escrevi
que nunca publicaria
um livro e vão dois
seja esta mais uma
contradição
em nome da amizade
essa sim não estraga
papel não polui
isto não é um poema
(skimming; buarcos; 2011)
plantei uma flor
no mar
o genocídio continua em gaza
o genocídio continua em gaza
na areia a meu lado
os teus olhos
procuraram a flor
sorriram ao vê-la
a guerra continua na ucrânia
a guerra continua na ucrânia
por entre as ondas
deste-me um beijo
a fome e a guerra em áfrica
a fome e a guerra em áfrica
depois acordei
e só me lembro
deste sonho
mediterrâneo é nome de cemitério
mediterrâneo é nome de cemitério
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
mais um ou menos um
esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação
sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas
a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra
são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam
faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais
por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir
não esqueças
a desumanidade não pára
(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)
não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho
em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o
carteirista era a sua alcunha
ti abílio
nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça
um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio
a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir
(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)