assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
“CORREIO
Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.
………..
Manuel Alegre

dou-vos a minha palavra
desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida
sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam
sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca
cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança
dou-vos a minha palavra

(cais do bico; murtosa)
nem isso
(TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
……………….
Álvaro de Campos)

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco
esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se
ao fundo
muito ao fundo
uma voz
nem isso

(torreira)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
pagai

falo dos moliceiros
e digo os homens
que do mesmo nome
arrolados
(linguagem de moliceiro)
os que não pagando
deles se servem
quais senhores feudais
dos tempos modernos
vassalagem quereis?
pagai-a então
que de palavra honrada
devíeis ser
homens

(torreira; regata da ria; 2010)
o meu amigo raul

como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo
parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família
é no alto mar
que fazem vida os homens daqui
a ria é cada dia mais
para quem espera partir
ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo
o caminho raul
é para a barra

(torreira)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)
abril vinte e cinco e os cravos

dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso
não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto
aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves
ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?
nunca se sabe

(ria de aveiro; torreira)
abril vinte e quatro

abril vinte e quatro
mil nove setenta e quatro
não sabíamos de amanhã
do amanhã que hoje
sabemos que ia ser
recordo os mortos nas
guerras criminosas no
silêncio das prisões às
mãos sádicas de não homens
que vimos condecorados
para nossa vergonha
depois de
abril vinte e cinco
quarenta e dois anos depois
é amanhã e podemos sair
à rua e por sermos mais de dois
não seremos presos

(torreira; regata do s. paio; 2012)