tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
o cinismo reina

mãos de mar, mãos de trabalho
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado
as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos
porque não algemam
as mãos que fazem armas?
o cinismo reina

mãos salgadas, mãos de pão
(torreira; companha do marco; 2013)
ser ainda

colhe a rede onde eu colho a luz
escutar a luz
perder-me de mim
reencontrar-me
ser ainda

no silêncio da ria o joão magins colhe a rede e, com sorte, alguns chocos ou linguados
(ria de aveiro; torreira)
eternidade breve

chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos
pesava 3,655 quilos
media 50,5 cm
isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser
é o tempo depois
de o meu tempo se acabar
a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira
são a minha
eternidade breve

(torreira; regata do s. paio; 2014)
tarda o sol

na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem
há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem
apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos
o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe
tarda o sol

(torreira; companha do marco; 2009)
raiva de não ser faca

regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo
ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido
o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas
raiva de não ser faca
(torreira; cabrita baixa; 2012)
quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente
o poema da ria

avô e neto
o mestre zé rito
e o zé pedro
este é o poema da ria

(torreira; regata da ria; 2011)
crescer com a xávega

não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem
trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram
o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos
não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

(torreira; companha do marco; 2013)
o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
para o meu amigo joão rodinhas

bem vindo às terras do sol
onde o pão parco
nascer na torreira é ser mestre
de todos os mares
senhor de saberes herdados
caminhos por fazer
parte-se para regressar
à ria ao sol e ao mar
até quando joão?

(torreira; companha do marco; 2009)