os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

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o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

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de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata

crónicas da xávega (145)


o cinismo reina

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mãos de mar, mãos de trabalho

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado

as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos

porque não algemam
as mãos que fazem armas?

o cinismo reina

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mãos salgadas, mãos de pão

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (196)


eternidade breve

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chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos

pesava  3,655 quilos
media 50,5 cm

isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser

é o tempo depois
de o meu tempo se acabar

a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira

são a minha
eternidade breve

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

crónicas da xávega (144)


tarda o sol

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na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem

há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem

apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos

o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe

tarda o sol

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

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regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente

crónicas da xávega (143)


crescer com a xávega

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não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem

trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram

o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos

não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

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(torreira; companha do marco; 2013)