o poeta joão damasceno na lápis de memórias


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retrato do poeta enquanto jovem artista

no dia 21 de março, dia mundial da poesia, a livraria “lápis de memórias”, em coimbra, joão damasceno foi o poeta.

a sua poesia dita pelo irmão rui, acompanhado pelo sobrinho pedro e joão queirós (à viola), lembraram aos amigos o homem e o poeta e, a quem o não conhecia, a força da sua criatividade poética.

desses momentos aqui fica o registo possível e o abraço de um amigo

 

João Damasceno

Coimbra, 1955-2010.

Licenciado em História pela Universidade de Coimbra, iniciou a sua vida profissional como professor do ensino secundário em Angola. Voltou para Portugal onde deu aulas em várias localidades em todo o país, inclusivé nos Açores. A sua obra foi composta e impressa na tipografia da família, salvo o Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel.

Obra publicada:

1983, Corpo Cru, Fenda;
1985, Alma-Fria, Sketches Policiários, Fenda;
1986, Cinco Suicídios, Fenda;
1989, Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel, Fenda;
no prelo, Carta de Probabilidades de Erosão Celeste, Tipografia Damasceno.

“Poema de JOÃO DAMASCENO

NOVA CARTA AOS PSIQUIATRAS

Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo

Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso

Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor

Deram-me os vossos comprimidos:

Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates”

in ” Corpo Cru”

 

crónicas da xávega (146)


até um dia

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o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador

não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles

são o silêncio
o murmúrio
a resignação

falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será

esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles

têm no rosto escrita
a vida

até um dia
serão apenas
o país profundo

até um dia

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dar-lhes voz

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (148)


cabrita alta

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joão manuel dias

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?

os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas

tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados

o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos

quero que os sintas
ao leres

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no fundo da ria e cabrita arrasta

(torreira; cabrita alta; 2012)

os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

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o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

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de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata

crónicas da xávega (145)


o cinismo reina

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mãos de mar, mãos de trabalho

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado

as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror

guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha

as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos

porque não algemam
as mãos que fazem armas?

o cinismo reina

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mãos salgadas, mãos de pão

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (196)


eternidade breve

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chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos

pesava  3,655 quilos
media 50,5 cm

isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser

é o tempo depois
de o meu tempo se acabar

a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira

são a minha
eternidade breve

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

crónicas da xávega (144)


tarda o sol

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na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem

há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem

apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos

o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe

tarda o sol

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

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regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente