postais da ria (152)


boas manel

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éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

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(ria de aveiro; cais do bico)

os moliceiros têm vela (200)


aos senhores da terra

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toda a beleza dos moliceiros

queria acreditar em vós
em tudo o dizeis

ouço-vos atento

mas de que serve ouvir-vos
se fazeis o oposto

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o que é tem a ver o moliceiro com o logotipo da câmara da murtosa

(torreira; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (199)


quem dera tu

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os dias têm o tamanho
de sempre

mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas

acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã

o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos

divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso

não te escrevo
escrevo-me

os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também

quem dera tu

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(murtosa; regata do bico, 2012)

crónicas da xávega (147)


dos euzinhos

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que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa

escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia

mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais

lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar

não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si

euzinhos

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(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (149)


ser quase nada

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a ria por destino

ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais

escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão

tantos

julgam ser
quase tudo

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henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira

(torreira; marina dos pescadores)