crónicas da xávega (533)


trago no corpo
o sal do verão
nos olhos
bailes de mar 

outono dentro 
de outono
continuo 

virá o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar

tudo 
o que é longe do mar
é longe de mim

até estas palavras
o são cada vez mais

(recriação de um lanço de xávega com bois; torreira; setembro; 2013)

postais da ria (470)


(porque hoje é 11 de setembro, republico)

quanto vale um americano?
20 chilenos?
100 árabes?
1000 africanos?

quantos vidas
vale um dólar?
 
"in god we trust"
pobre deus se existes
para onde te levaram
nada mais que uma moeda
de troca por sangue
com cheiro a fruta, a petróleo
 
há palavras
que são perigosas
a verdade quando escrita
ainda é mais perigosa
 
há palavras
que são a carne de um sonho
o esqueleto de uma utopia
a coluna vertebral de uma sociedade
 
escrevem-nas diariamente com sangue
os povos deste mundo
nas paredes da terra
para que, se outros mundos houver,
se saiba do que aqui se passa

(cais do bico; murtosa; 2013)