a fala dos retratos_66


vazias mãos de tanto
terem dado
sou
o que resta
migalhas de mim
por aí espalhadas

e eu

eu nada
ao dar
dei-me
e fiquei assim

vazio de mim
a olhar o horizonte
o sonho perdido na ria
o desespero do
não regresso
fui-me

e não voltei

resta o casco
carcomido
cansado não
mas encalhado

quero um barco
novo

(ti abílio carteirista; regata da ria; 2019)

postais da ria (453)


aqueço as mãos
ao lume da ternura
que invento em cada gesto

(ti manel viola -rip- e alfredo viola a safarem redes do saltadoiro; cais da bestida; 2006)

nota: esta era a última “bateira labrega murtoseira” da ria de aveiro e a última a praticar a arte do saltadoiro