a prenda


meticulosamente
começou a despi-la

os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de

uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima

até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces

admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos

tinha conseguido

depois
depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal

dorme bem pai


estou triste porque partiste
e feliz porque não sofreste

é assim o amor pai
deseja uma boa morte aos amados

em silêncio nos diremos enquanto

não morreste
adormeceste para sempre
dorme bem pai

postais da ria (399)


águas vivas

outras as artes outras redes
malhas mais finas
prenderam o sonho
o sol uma vida

o testemunho do tempo
o olhar a guardar a memória
onde agora

safam-se os dias
onde algas secas ainda

a paciência é a arte
da sobrevivência

a reinvenção dos dias
é um tempo cheio de tempo
uma navegação em águas
vivas porque revividas

(torreira; safar redes; 2019)