postais da ria (227)


iludi-me

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torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira

da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito

o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória

olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi

tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões

sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto

iludi-me

 

os moliceiros têm vela (281)


carta aos resistentes

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não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

admiro que ainda
perguntas-me como

só encontro uma palavra
amor

assim a terra
o entendesse

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

não é sonho
é viver ou morrer

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(regata do bico; 2017)

os moliceiros têm vela (280)


sonharei sempre

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sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras

recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar

também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra

que dizer da lua
e das suas duas faces

sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei

deixo as certezas
para os treinadores
de bancada

levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber

sonharei sempre

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o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão

(torreira; regata do s. paio; 2015)

postais da ria (224)


durmo mal

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safam-se as redes, limpa-se o lixo

sei demais
mesmo sabendo pouco

vivi muito
durmo mal

não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me

as ilusões são breves
por isso são

o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste

espero-te sentado
enquanto leio

não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal

não me embalas
com cantigas

(torreira; 2017)

os moliceiros têm vela (279)


eu tenho um sonho

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como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são

dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias

soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir

“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

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(murtosa; regata do bico; 2017)