postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria

os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

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o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

a arte solheira do largar ao alar


o alberto trabalhito (trovão) e o necas

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a solheira é uma rede de emalhar de 3 panos justapostos – 2 albitanas e um miúdo – ou rede de tresmalho.

o aparelho da solheira é constituído por um determinado número de redes – andares/rações. as malhagens e comprimento total estão definidas no “Regulamento por arte de emalhar”.

de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.

os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.

assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura

este vídeo, dos primeiro que fiz, data do de 2010, contou a colaboração do meu amigo alberto trabalhito (trovão) e o necas (já falecido) para um lanço breve e perto do porto de abrigo.

por estranho que pareça queria dedicar este vídeo aos pescadores da torreira e ao necas que , mais que um cão, era um amigo de trovão e da linda.

além de guardar as redes e o barco ainda ia chamar um dos donos quando era preciso, quantas vezes o trovão dizia ao neca “vai chamar a linda” e o mesmo para a linda “vai chamar o trovão” …. e o necas lá ia.

se no filme o ouvimos ladrar é porque vão a passar outros barcos e ele como bom cão de guarda vai avisando que ali é a casa dos donos.

obrigado trovão por me teres levado contigo, obrigado alfredo miranda pela documentação sobre as artes de pesca.

espero ainda publicar mais alguns vídeos só sobre a alagem, com outros pescadores noutras bateiras.

quero que vivam a ria com os sons dela e as gentes que dela tiram sustento

(torreira; 2010)

postais da ria (199)


do viver

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o meu amigo ti zé formigo

há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de

eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

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o prazer da ria é ser nela todo

(torreira; s. paio; 2014)

o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida

os moliceiros tem vela (245)


porque hoje, no brasil, é dia
nacional da fotografia e do fotógrafo

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o A. Rendeiro, com o ti zé rebeço ao leme e o manuel antão

para que se lembrem
ou acordem
os que podem querem e mandam
mas parece não saberem

que este pode ser
um dos motores do turismo temático
da ria
onde de novo
produzirá riqueza

assim o queiram
assim o saibam
assim o não ignorem
maltratem ou dele descuidem

para mim é dele o dia

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (195)


notas de um retirante

enguias, onde?

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a receita “caldeirada de enguias à murtoseira”, tem imagem de marca e é única.

a receita, entenda-se.

agora fica a pergunta: ainda há enguias na ria? ainda há quem possa fazer vida da apanha de enguias? as enguais ainda são uma riqueza da ria?

em tempos de haver moliço e a ria ser a de eu me lembrar, apanhava-se enguia à certela, à fisga, ao candeio, à chincha, com galrichos ……

apanhava-se porque havia. e agora?

a companha do manel trabalhito, pai, apanhava-as à chincha de pareja, o filho continuou, não sei se ainda continua. o henrique “orelhas” continua com a chincha de pareja. na torreira são os que conheço.

haverá talvez 2 pescadores, poucos mais, que apanham algumas enguias com galrichos, mas com bateiras atracadas no lado da serra: bestida, murtosa, bunheiro ……

as enguias que se comem no concelho e nos festivais gastronómicos; as que a comur conserva e vende; as que a maior parte dos restaurantes serve…. todas essas, de onde vêm?

há enguias na ria? há, sim senhor. mas há quantos anos não chegam para as encomendas?

neste galricho vão 2, nos galrichos todos foram para aí 3 ou 4 – em 2012, com o armando bastos (piço) e o emanuel (rico).

não adianta esconder o sol com a peneira. fazem-se boas caldeiradas nos restaurantes do concelho da murtosa, mas em quantos se comem enguias da ria e quantas vezes?

vale a pena procurar e perguntar e só depois escrever.

(2012)

postais da ria (192)


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henrique pai e henrique filho, brandões (gamelas)

o tempo tudo julga
e a seu tempo
dirá de sua justiça

o tempo julga
à velocidade
da justiça portuguesa

em sede de recurso
se acaso houvesse
seria de mortos a demanda

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os henriques brandão, pai e filho

 

(torreira; cirandar)

 

os moliceiros têm vela (233)


insurrecto!

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o ti abílio carteirista ao leme e controlar a vela

se há alguém que diz esta palavra de uma forma muito especial é o ti abílio fonseca (carteirista), dono do moliceiro “Dos Netos”. ora bem, este ano, na regata do s. paio foi, pelo menos, um insurrecto com ele: eu. ia mais uma pessoa a bordo, o carlos lopes franco, mas não serei eu dizer o que ele é, para além de ser um grande fotógrafo.

feita esta pequena nota, comecemos a aventura. o ti abílio não tinha camaradas para o ajudarem no manobrar do barco, por isso e porque parecia que não teríamos grande vento, perguntei-lhe se podia ir sozinho, comigo e com o carlos. lá fomos – entrámos e saímos do moliceiro no meio da ria!

as fotos que fiz, não muitas, foram de dentro do moliceiro e ao moliceiro com mais idade inscrito nesta regata, 79 anos, que manobrou sozinho o barco. eu e o carlos, recebíamos ordens, mas do género: saiam daí! vão para cima do vento! olhem a toste! baixem a cabeça! ponham os pés nas cavernas! (aqui o carlos olhou-me interrogativamente: que diabo ele tinha vindo de lisboa para fotografar uma regata de moliceiros e estava debaixo de fogo, numa guerra em que nunca tinha estado) …. e outras.

impressionante a agilidade e a força com que, repito, aos 79 anos, o ti abílio corria do leme para as tostes, das tostes para a vela ….. saiam da frente!

espero que os registos fotográficos e fílmico que fiz desta aventura, retratem a fibra de um homem e mostrem como se manobra um moliceiro. se conseguir, por pouco que seja, mostrar algo deste fenómeno sinto-me feliz.

ficam para outra publicação, algumas meditações sobre a regata. o insurrecto ainda está vivo

(torreira; 4 de setembro de 2016)

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dentro do moliceiro “Dos Netos” e com “O Amador” na peugada